Portuguese poem
Diz Valdevinos
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
—Oh minha espôsa e senhora, Ja não tereis em podêr Vosso espôso que assim chora, Pois a morte roubadora Vos roubou todo o prazer. Oh vida do meu viver, Resplandecente narciso, Gran’ pena levo em saber Que nunca vos heide ver Até o dia do juizo. Oh esperança por quem Tinha victoria vencida! Oh minha glória, meu bem, Porque não partis tambem, Poisque sois a minha vida? Senão for vossa vontade De haver de mim compaixão, Mandae-me meu coração, Minha fe e liberdade, Que está em vossa prizão. Madre minha muito amada, Qu’é de o filho que paristes, De quem ereis consolada? Como se ha tornado nada Quanta glória possuistes? Ja me não vereis reinar, Ja me não dareis conselho, Nem eu o posso tomar; Que quebrado é o espelho Em que vos sabeis olhar. Ja nunca me haveis de ver Fazer justas e torneios, Nem vestir nobres arreios, Nem cavalleiros vencer, Nem tomar bandos alheios. Ja não tomareis prazer Quando me virdes armado; Ja vos não virão dizer A fama de meu podêr, Nem louvar-me de esforçado. Oh valentes cavalleiros, Reinaldos de Montalvão, Oh esforçado Roldão, Oh marquez Dom Oliveiros, Dom Ricardo, Dom Dudão, Dom Gaifeiros, Dom Beltrão, Oh gran’ duque de Milão, Que é de vossa companhia? Duque Maime de Baviera, Que é de vosso Valdevinos? Oh esforçado Guarinos, Quem comsigo vos tivera! Meu amigo Montesinhos, Ja nunca mais vos verei; Dom Alonso de Inglaterra, Ja nunca acompanharei O conde Dirlos na guerra. Oh esforçado marquez De Mantua, teu senhorio, Ja não me poreis arnez, Nem me vereis outra vez Gozar vosso senhorio. Ja não quero o vosso estado, Ja não quero ser pessoa, Nem mandar, nem ter reinado; Ja não quero ter coroa, Nem quero ser venerado. Oh Carlos imperador, Senhor de mui alta sorte, Como sentireis gran’ dor Sabendo da minha morte, E quem d’ella é causador: Bem sei, se sois informado Do caso como passou, Que serei mui bem vingado, Ainda que me mattou Vosso filho mui amado. Oh principe D. Carloto, Quem, sendo tam desegual, Te moveu a fazer mal Em um logar tam remoto A teu amigo leal? Alto Deus omnipotente, Juiz direito sem par, Sôbre ésta morte innocente Justiça queirais mostrar, Pois morro tam cruelmente. Oh Madre de Deus benigno, E fonte de piedade, Arca da Sancta Trindade, De donde o Verbo Divino Trouxe sua humanidade, Oh Sancta Domina mea, Oh Virgem gratia plena Em que a alma se recrea, Dae remedio á minha pena, Pois que morro em terra alhea.
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