Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Guimar

Portuguese poem

Guimar

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Era a menina mais linda Que n’aquella terra havia; Tam formosa e tam discreta De outra egual se não sabia. Muito lhe quer Dom João, Muito demais lhe queria: Seus amores, seus requebros Não cessam de noite e dia. Por fidalgo e gentil moço Ninguem tanto a merecia; Senão que o pae da donzella Outro conselho seguia: Casá-la quer muito ricca Com um mercador que ahi havia, Sem fazer caso de amores, Sem lhe importar fidalguia. Dom João, quando isto soube, Por pouco se não morria: Foi-se d’alli muito longe Sem dizer para onde ia. Tres mezes por lá andou, Tres mezes n’essa agonia; A vida que lhe pesava Soffrê-la ja não podia. Mandou sellar seu cavallo Sem cuidar no que fazia; Deitou por esses caminhos Sem saber adonde ia. O cavallo é quem mandava, Cavalleiro obedecia. Passou por terras e terras, Nenhuma não conhecia. Á sua tinha chegado, Onde estava não sabia. Era por manhan de maio, Todo o campo florecia, Os passarinhos cantavam, O prado verde surria; Lá de dentro da cidade Um triste clamor se ouvia Eram sinos a dobrar, E era toda a clerezia, Eram nobres, era povo Que da egreja sahia... Entrou de portas a dentro, De rua em rua seguia, Chegou á de sua dama, Essa sim que a conhecia. As casas onde morava, Janellas aonde a via, Tudo é cuberto de preto, Mais preto que ser podia. Mandou chamar uma dona Que ella comsigo trazia: —‘Dizei-me por Deus, senhora, Dizei-me por cortezia, Esse lutto tam pesado Por quem trazeis, que seria?’ —‘Trago-o por minha senhora, Dona Guimar de Mexia, Que é com Deus a sua alma, Seu corpo na terra fria. E por vós foi, Dom João, Por vosso amor que morria.’ Dom João quando isto ouviu Por morto em terra cahia, Mas a dor era tammanha Que á fôrça d’ella vivia. Os seus olhos não choravam, Sua bôcca não se abria. Mirava a gente em redor Para ver o que faria. Vestiu-se todo de preto, Mais preto que ser podia, Foi-se direito á egreja Onde sua dama jazia: —‘Eu te rogo, sacristão, Por Deus e Sancta Maria, Eu te rogo que me ajudes A erguer ésta campa fria.’ Alli a viu tam formosa Tal como d’antes, a via; Alli, morta, sepultada, Inda outra egual não havia, Pôs os joelhos em terra, Os braços ao ceo erguia, Jurou a Deus e á sua alma Que mais a não deixaria. Puchou de seu punhal de oiro, Que na cintura trazia, Para a accompanhar na morte Ja que em vida não podia. Mas não quiz a Virgem sancta, A Virgem Sancta Maria, Que assim se perdesse uma alma Que só de amor se perdia. Por juizo alto de Deus Um milagre se fazia: A defuncta a mão direita Ao seu amante extendia, Seus lindos olhos se abriram, A sua bôcca sorria; Volta a vida que se fôra, Com todo o amor que não se ia. Seu pae, o foram buscar, Que ja estava na agonia; Véem amigos, véem parentes, Todos em grande alegria. Dão graças á Sancta Virgem, Cujo milagre seria; E a Dom João dão a espôsa, Que tam bem a merecia.