Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Helena

Portuguese poem

Helena

by

Listen in the reader

—‘Ai! que saudades me apertam Pela casa de meu pae! Tambem me apertam as dores, E minha mãe sem chegar!’ —‘Se as saudades te apertam, Bem n’as podes ir mattar; As dores não serão muitas, Toma o caminho—e andar!’ —‘E á noite meu marido, Quem lhe dará de cear?’ —‘Da caça que elle trouver, Eu lh’a farei amanhar. Do meu pão e do meu vinho que elle quizer tomar.’ —‘Onde está mi’ espôsa Helena Que me não dá de cear?’ —‘Tua espôsa Helena, filho, Foi-se para não tornar. Que ia para sua casa, Que nos não póde aturar. Chamou-me a mim perra velha, A ti filho de mãe tal.’ —‘O meu cavallo andaluz Ja e ja m’o vão sellar. Essa mulher, por Deus juro Que ella m’as tem de pagar.’

—‘As boas novas, meu genro, Que tenho para vos dar! Filho barão, e tam lindo, Um anjo de pôr no altar!’ —‘Novas me dão, boas novas; Más as trago eu para dar: Que a mãe que o pariu Não é que o hade criar. Ergue-te d’ahi, Helena, Que me tens de accompanhar.’ —‘Paridinha de uma hora, Onde a quereis levar?’ —‘Para perto, e bom caminho; Não tem muito que penar, Que o meu cavallo andaluz Anda mais do que o luar.’ —‘Ande elle, que não ande, Onde a quereis levar?’ —‘Call’-se d’ahi, minha mãe, Ja se havia de callar; Que a mulher que é bem casada, O marido a hade mandar. Que me dem a minha cinta, Para eu me conchegar, E esse meu gibão forrado Para melhor me abafar. E agora dem-me o meu filho, Que o quero abraçar. Ai! d’estes beijos, meu filho, Se te saberás lembrar? Lembrae-lh’o vós, minha mãe, Quando elle souber fallar.’ —‘Que dizes, filha, que dizes?’ —‘Minha mãe, isto é folgar; Que é tam perto e bom caminho Para onde temos de andar; E o cavallo andaluz, Anda mais do que o luar.’ O cavallo era andaluz Andava mais que o luar; O caminho era de pedras, Elle ia a tropeçar. Vão andando, vão andando Sem um nem outro fallar, Ella ja tem as mãos frias, O corpo está-lhe a inchar; Chegando ao alto da serra Deu um ai, quiz desmaiar. —‘Que ais são esses, Helena? Porque estás a suspirar?’ —‘É que se me acaba a vida, —‘É que me estou a finar: Paridinha de uma hora, Sinto-me em sangue alagar.’

Ja se não tem a cavallo, Alli a foi apear: Era a agonia da morte Que ja lhe estava a apertar. —‘A quem deixas, o teu oiro, Que t’o hajam de estimar?’ —‘Deixo-o a minhas irmans, Se tu lh’o quiseres dar.’ —‘A quem deixas essa cruz E as pedra do teu collar?’ —‘A cruz, deixo-a a minha mãe Que por mim lha hade rezar. As pedras, não as quer ella, E bem n’as podes guardar: Se a outra as deres, marido, Melhor lh’as deixes lograr.’ —‘Tua fazenda, a quem deixas, Que t’a saibam grangear?’ —‘Deixo-t’a a ti, marido; Que t’a deixe Deus gosar!’ —‘A quem deixas o teu filho Que t’o hajam de criar?’ —‘A tua mãe—que Deus queira Amor lhe venha a ganhar!’ —‘Não o deixes a essa perra, Que é capaz de t’o mattar. Ai! deixa-o antes á tua, Que bem n’o hade criar. Com lagrymas de seus olhos Bem n’o ella hade lavar; Toucas de sua cabeça Tirará para o pençar.’ De ouvir aquellas palavras A pobre quiz-se animar; Mas a voz que vem do peito A bôcca não póde achar. Inda lhe disse c’os olhos Que lhe estava a perdoar. —‘Não me perdoes, Helena, Que Deus te hade escutar. Ai! as penas do inferno, Ja as eu coméço a penar, Que vejo subir ao ceo O meu anjo tutelar. Mal hajam linguas traidoras E ouvidos que lhe eu fui dar! Que por amor das más linguas Meu anjo vim a mattar! Sette annos e mais um dia Me irei a peregrinar, Á porta sancta de Roma Me quero ir ajoelhar; E aqui um sancto convento Fundarei n’este logar, Com sette missas por dia Cada uma em seu altar; Que digam todos que o virem: ‘Aqui foi seu mal-peccar, E aqui fez penitencia Para Deus lhe perdoar.’