Portuguese poem
I
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Ao mar se foi D. Ramiro, Galé formosa levava; Seu pendão terror dos Mouros N’alta poppa tremolava.
Oh que adeus na despedida! De saudades vai rallado; Com tantos annos de amores, Não tem um de desposado.
Nem ha dama em toda a Hespanha Tam bella como é Violante; Não a houvera egual no mundo Se ella fôra mais constante.
Bate o mar na barbacan Do castello alevantado, Só a vela na alta tôrre Não cede ao somno pesado.
Tudo o mais repousa e dorme, Tudo é silencio ao redor; Dobra o recato nas portas Com a ausencia do senhor.
Mas a certa hora da noite Se vê luz n’uma setteira, E logo cruzar por perto Leve barca aventureira.
Muitas noites que passaram, Manso esteja ou bravo o mar, A mesma luz, á mesma hora, A mesma barca a passar.
E isto ignora o bom Rodrigo, Que tam fiel prometteu De guardar a seu senhor Juramento que lhe deu?
Sabera, não sabera: Mas a c’ravella ligeira, Que aopé da torre varada Jazia alli na ribeira.
Uma noite escura e feia Na praia menos se achou... Quem n’ella foi não se sabe, Mas onde foi não tornou.
E o farol que no alto luz Á mesma hora a brilhar... Só a barca aventureira Não foi vista hoje passar.
E d’um lado aopé da rocha Havia um falso postigo: Só o sabem D. Ramiro, Violante e o fiel Rodrigo.
Mas alta noite, horas mortas, Gente que o postigo entrava, E á porta de Violante Manso bater se escutava.
—‘Quem bate á minha porta, Quem bate, oh! quem ’stá ahi? —’Sou Bernal-francez, senhora, Vossa porta a amor abri.’
Ao descer do leito d’oiro A fina hollanda rasgou, Ao abrir mansinho a porta A luz que se lhe apagou:
Pela mão tremente o toma, Ao seu apposento o guia: —‘Como treme, amor querido, Esta mão, como está fria!’
E com osculos ardentes E no seio palpitante, Que lhe aquece as frias mãos A namorada Violante.
—‘De longe vens?’—‘De mui longe.’ —‘Bravo estava o mar!’—‘Tremendo.’ —‘Armado vens!’—Não responde. Vai-lhe as armas desprendendo.
Em pura essencia de rosas O amado corpo banhou, E em seu leito regallado A par de si o deitou.
—‘Meia noite ja é dada Sem para mim te voltares, Que tens tu, querido amante, Que me incobres teus pezares!
‘Se temes de meus irmãos, Elles não virão aqui; Se de meu cunhado temes, Não é homem para ti.
‘Meus criados e vassallos Por essa tôrre a dormir, Nem de nosso amor suspeitam, Nem o podem descubrir.
‘Se de meu marido temes, A longes terras andou: Por lá o detenham Mouros, Saudades ca não deixou.’
—‘Eu não temo os teus criados, Meus criados tambem são: Irmãos nem cunhado temo, São meus cunhados e irmão.
‘De teu marido não temo Nem tenho de que temer... Aqui está aopé de ti, Tu é que deves tremer.’