Portuguese poem
Linda-A-Pastora
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
—‘Linda pastorinha, que fazeis aqui?’ —‘Procuro o meu gado que por ahi perdi.’ —‘Tam gentil senhora a guardar o gado!’ —‘Senhor, ja nascemos para esse fado.’ —‘Por éstas montanhas em tam grande p’rigo!’ Diga-me, ó menina, se quer vir commigo.’ —‘Um senhor tam guapo dar tam mau conselho. Querer que se perca o gado alheio!’ —‘Não tenha esse medo que o gado se perca Por aqui passarmos uma ora de sésta.’ —‘Tal razão como essa não n’a ouvirei: Ja dirão meus amos que de mais tardei.’ —‘Diga-lhe, menina, que se demorou Co’esta nuvem de agua que tudo molhou.’ —‘Fallarei verdade, que mentir não sei: Á volta do gado eu me descuidei.’ —‘Pastorinha, escute, que oiço ballar gado...’ —‘Serão as ovelhas que me tem faltado.’ —‘Eu lh’as vou buscar ja muito depressa, Mas que me espedace por essa charneca.’
—‘Ai como vai grave de meias de seda! Olhe não as rompa por essa resteva.’ —‘Meias e sapatos, tudo romperei So por lhe dar gôsto, minha alma, meu bem.’ —‘Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.’ —‘Meu destino foi ser vosso criado.’ —‘Senhor, va-se embora, não me dê mais pena, —‘Que hade vir meu amo trazer-me a merenda.’ —‘Se vier seu amo, venha muito embora; Diremos, menina, que cheguei agora.’ —‘Senhor, va-se, va-se, não me dê tormento: Ja não quero vê-lo nem por pensamento.’ —‘Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora! Fica-te, eu me vou pela serra fóra.’ —‘Venha cá, Senhor, torne atrás correndo... Que o amor é cego, ja me está rendendo.’ Sentaram-se á sombra... tudo estava ardendo... Quando ellas não querem, então ’stão querendo.
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