Portuguese poem
O Cavador
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Dezembro, noite, canta o galo... Rouco na treva canta o galo... --Oh, dor! oh, dor!-- Aldeão não durmas!... Vae chamal-o, Miseria negra, vae chamal-o!... --Oh, dor! oh, dor!-- Bate-lhe á porta, é teu vassalo, Que traga a enxada, é teu vassalo, Miseria negra, o cavador!
O vento ulula... Tremem ninhos... Na noite aziaga tremem ninhos... --Oh, dor! oh, dor!-- A neve cae, fria d'arminhos... Na escuridão, fria d'arminhos... --Oh, dor! oh, dor!-- Passa maldito nos caminhos, D'enxada ao hombro nos caminhos, Fantasma negro, o cavador!
Vem roxa a estrella d'alvorada... Vem morta a estrella d'alvorada... --Oh, dor! oh, dor!-- Montanhas nuas sob a geada!... Hirtas, de bronze, sob a geada... --Oh, dor! oh, dor!-- Torvo, inclinado sobre a enxada, Rasga as montanhas com a enxada. Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou desde que é dia... Cavou, cavou... Bateu meio dia... --Oh, dor! oh, dor!-- De pé na encosta erma e bravia, Triste na encosta erma e bravia, --Oh, dor! oh, dor!-- Largando a enxada, «Ave Maria!...» Resa em silencio... «Ave Maria!...» Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou na serra agreste, D'alva á noitinha em serra agreste... --Oh, dor! oh, dor!-- E um caldo em premio tu lhe deste, Meu Deos!... seis filhos tu lhe deste... --Oh, dor! oh, dor!-- Batem trindades... «Pae celeste!... Bemdito sejas, Pae celeste!...» Resa, fantasma, o cavador!
Cavou cem montes... que é do trigo?! Gerou seis bocas... que é do trigo?! --Oh, dor! oh, dor!-- Bateu a Fome ao seu postigo... Bateu a Morte ao seu postigo... --Oh, dor! oh, dor!-- «Que a paz de Deos seja comigo! Que a paz de Deos seja comigo!...» Disse, expirando, o cavador!
Junho--91.