Versos Portuguese Abílio Manuel Guerra Junqueiro Iv

Portuguese poem

Iv

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Mas como havia ainda alguns consumidores D'esse vinho que o sol deixou de fecundar, Uns velhos cardeaes, habeis exploradores, Reuniram-se em concilio afim de os imitar.

E é assim que Antonelli, o verdadeiro papa, O chimico da fé, um grande industrial, Fabrica para o mundo ingenuo uma zurrapa Que elle assevera que é o antigo vinho ideal.

Para isso combina os varios elementos Que compõem esta droga: o nome de Maria, Anjos e cherubins, infernos e tormentos, Bastante estupidez e immensa hypocrizia.

Põe isto tudo a ferver, liga, combina, mexe, E, filtrando atravez d'uns textos de latim, Eis preparado o vinho, ou antes o campeche, Que a saúde da alma hade arruinar por fim.

Mas como o paladar de muitos europeus Quasi prefere já (horrivel impiedade!) Á falsificação do vinho do bom Deus O vinho genuino e puro da verdade;

E como já por isso, (assim como era d'antes) A Igreja não nos queime e o rei não nos enforque, A curia procurou mercados mais distantes, O Japão, o Perú, a Australia e Nova York.

Os comis-voiageurs de Roma--os Lazaristas Com as carregações vão atravez do oceano, Por toda a parte abrindo os armazens papistas, A fim de dar consumo ao vinho ultramontano.

Em cada igreja existe uma taberna franca Para impingir a tal mixordia, o tal horror, Ou secca ou doce, ou velha ou nova, ou tinta ou branca, Segundo as condições e a fé do bebedor.

Para Hespanha vão muito uns vinhos infernaes, Um veneno explosivo e forte que produz Um delirio tremente--o General Narvaes, E um vomito de sangue--o cura Santa Cruz.

Portugal quer vinagre. A Italia quer falerno. Veuillot quer agua-raz que ponha a lingua em braza. E John Bull, por exemplo, um pouco mais moderno, Manda ao diabo a botica, e faz a droga em casa.

Ao povo, esse animal, que o Padre Eterno monta, Como é pobre, coitado, então a Santa Sé Fabrica lhe uma borra incrivel, muito em conta, Um pouco de melaço e um pouco d'agua-pé.

A fina flôr christã, a flôr altiva e nobre, O rico sangue azul do bairro S. Germano, Para quem o bom Deus é um gentil-homem pobre A quem se dá de esmola alguns milhões por anno.

Essa como detesta os vinhos maus, baratos, Como é de raça illustre e debil compleição, Mandam-lhe um elixir que serve para os flatos, Ou para pôr no lenço ao ir á communhão.

De resto ha quem, bebendo essa tisana impura, Sinta a impressão que outr'ora o nectar produzia. São milagres da fé. Ditosa a creatura Que no ruibarbo encontra o sabor da ambrosia.

E eu não vos vou magoar, ó almas côr de rosa Que inda achaes neste vinho o esquecimento e a paz! Não insulto quem bebe a droga venenosa; Accuso simplesmente o charlatão que a faz.