Versos Portuguese Abílio Manuel Guerra Junqueiro Iv

Portuguese poem

Iv

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Como ninguem ignora, os sordidos palhaços Compram, roubam às mães as loiras creancinhas, Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços, Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas, E exhibem-nas depois nos palcos das barracas Dando saltos mortaes e devorando facas Ante o espanto imbecil da ingenua multidão; E para lhes cobrir a lividez plangente Costumam-lhes pintar carnavalescamente Na face de alvaiade um rir de vermelhão. Tambem o jesuitismo hipocrita-romano, Palhaço clerical, anda pelos caminhos A comprar, a furtar, assim como um cigano, As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos. Vão leval-as depois ao negro seminario, Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro, E escondem-nas da luz, assim como o usurario Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro. Dentro da estupidez e da superstição, Casamata da fé, guardam-lhes a razão, A analize, esse forte e venenoso fluido, Que, andando em liberdade, ao minimo descuido Poderia estoirar com tragica explosão. O que o palhaço faz ao corpo da creança Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim, Em logar do histrião que nas barracas dança, O pobre missionario, o inutil manequim, O histrião que nos prega a bemaventurança A murros do missal e a roncos de latim. As almas infantis são brandas como a neve, São perolas de leite em urnas virginaes. Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve Cristalisa em seguida e não se apaga mais. D'esta forma consegue o astucioso clero Transformar de repente uma creança loira N'um passaro nocturno estupido e sincero. É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira A marca industrial do fabricante--um zero!