Portuguese poem
Scena Xvii
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
O ESPECTRO DE D. JOSÉ, que vem de manso, desconfiado, olhando à volta, como temendo o quer que seja. Depois, baixinho, ao ouvido do rei:
O marquês não está?... Vê lá... Guardas segrêdo? Então assina... Adeus... pode vir... tenho mêdo!...
Desaparece.
O DOIDO, na escuridão:
Diz o rei à amante: «Vem para os meus braços!» --Ardem nos teus braços nódoas do meu sangue!...
«Vem para os meus braços, dorme no meu peito...» --Ardem no teu peito nódoas do meu sangue!...
«Dorme no meu peito, junto dos meus lábios...» --Ardem nos teus lábios nódoas do meu sangue!...
«Oh, que ideias loucas, meu amor doirado!... Fui à caça aos lôbos, venho ensangùentado.»
Deitam-se na cama... Longe, ao pé do mar, Centos de martelos, truz! a martelar!...
--Ai, levantam forcas!... Pesadelo horrendo!... «Um bergantim d'oiro que te estão fazendo...»
Beija o rei a amante com lascivo ardor... Vem da noite funda gritos de estertor...
--Matam-me os parentes!... bem lhes oiço os ais!...-- «São as rôlas, filha, pelos pinheirais...»
Beijam-se um ao outro, presos por abraços, Sente-se nas trevas um mover de passos,
E entram degolados, arquejando arrancos, Três fantasmas, vêde-os! com sudários brancos!...