Portuguese poem
Scena Xx
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
O ESPECTRO DE D. MARIA II:
Inclina um rei perante um rei (somos iguais) A realeza. Perante um vassalo, jàmais! O monarca ao monarca (é irmão com irmão) Dobra o orgulho sem infâmia; o rei ao povo, não! Assina, e já! Príncipe vil, que se amedronte, Usa, mas sem direito, um diadema na fronte. Povo em rebelião, não é povo, é canalha. Beija-te os pés?--indulto. Ergue o braço?--metralha. Faltam soldados e clavinas? Pouco importa: El-Rei de Espanha os mandará; tem-los à porta
Desaparece.
O DOIDO, na escuridão:
Tremia a raínha de me ouvir cantar... Oh, loucura minha, desventura minha! Cantigas são asas, fazem-nos voar... Mandou-me prender, mandou-me espancar.
E eu desatei a rir, eu desatei a rir, E três dias cantei com mais três noites a seguir!...
Não dormia a raínha de me ouvir cantar... Oh, loucura minha, desventura minha! Cantigas são graças para não chorar... Mandou-me prender, mandou-me enforcar.
Chegaram as tropas e eu, desarmado, Zás! desbaratei-as com o meu cajado!
E pus-me a cantar! e pus-me a cantar!
Tremendo, a raínha disse então ao rei: «Emquanto o não matem não descansarei. Com teus cavaleiros vai-mo tu buscar, Traz-mo aqui de rastros para o degolar.»
Veio o rei à frente dum grande estadão, Zás! desbaratei-o com o meu bordão! É de temer, é de temer Um doido varrido com um pau na mão!...
E sempre a cantar! e sempre a cantar!
Então a raínha, vileza traiçoeira! Chamou inimigos d'alêm da fronteira... E tantos! e tantos!... Que havia de eu fazer?... Quebrei de raiva o meu bordão e deixei-me prender...
Levado de rastros aos pés da raínha, Cuspiu-me na cara! Oh, vergonha minha! por fortuna minha, Melhor me matara!... melhor me matara!... O gôsto que teve durou-lhe bem pouco... Foi ela que morreu!... foi ela que morreu!... Vi-a passar já no caixão, ia a enterrar... E sabeis o que eu fiz? (o que é ser louco!... o que é ser louco!...) Desatei a chorar!...