Portuguese poem
Scena Xix
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
O ESPECTRO DE D. JOAO VI:
Toca a sentar! deixa sentar esta carcassa, Já roída do bicho e comida da traça! Um corpo que pesou talvez seus dois quintais, Ou mais, Hoje é isto! olha lá, mira-me bem em tôrno: Uns vinte arráteis d'osso e outros tantos de corno! P'ra que diabo é que Deus fez a alma imortal, Não me dirão?! O corpo, acho eu natural Que engordasse e medrasse em paz na eterna glória; Mas a alma! ora cebo! Uma alma incorpórea, Sem bôca, sem nariz, sem barriga, sem nada, Que não come um leitão, nem funga uma pitada, Deus me perdôe a asneira, uma indrómina assim, Inda que êle a engenhou, não me convêm a mim! A morrer por morrer, antes a alma; em suma, O desgôsto era leve, a perda era nenhuma. E o corpo desalmado, escorreito e perfeito, Êsse é que Deus com todo o geito O devia levar, dando-lhe a eternidade, P'ra comer como um porco e roncar como um frade. Neste mundo em que'stou, nesta vida infinita, Grande falta me faz a barriga, acredita! Os miolos, já não... E, caso estranho, agora Penso muito melhor do que pensava outrora... Dão-me ideias! que espiga!... Atribuo tais factos A andar-me na caveira uma porção de ratos. Ideias!... Qual a ideia humana, por sublime, Que se compare ou se aproxime Dum peru com arroz, bem gordo e bem tostado?! Que é a vida? jantar! E a morte? ser jantado! Comer ou não comer, eis a eterna questão. Mas comer com descanso e com satisfação. Comer em paz; sem um remorso e sem fadigas. Nada de inquietações mortais, nada de brigas! Temor a Deus, mesa de abade, cama quente E rir a gente! Eu fui um infeliz como não há segundo, Um malaventurado aos tombos pelo mundo! A mulher uma cabra; os filhos um veneno; Sustos; o hemorroidal, vê lá, desde pequeno! E não parar! sempre em bolandas, sempre à tôa... Que vida! E como a vida, apesar disso, é boa! Oh, cantochões em Mafra!... oh, merendas no Alfeite!... Oh, séstas de Queluz em Junho!... Que deleite!... Manda ao demónio a guerra, a mulher e os cuidados! Enfardela-me aí cem milhões de cruzados Em peças d'oiro, assina o que tens de assinar, Veste o capote, leva a c'roa e põe-te a andar! Deixa os ingleses... Fracas bêstas!... raça vil!... Muda-te p'ró Brasil... Muda-te p'ró Brasil! Fruta maravilhosa e súbditos leais... Eu, no teu caso, até não voltava cá mais. E o povo, adeus!... que se governe... emfim, paciência... E cá lhe fica, que mais quer? a Providência!... ......................................................... Boas noites... É tarde... o sepulcro me chama... Vou-me deitar... Que fria e triste a minha cama! Gêlo e chumbo!... Os lençóis, farrapos com matéria, Nem me tapam sequer os ossos, que miséria! E depois sôbre mim, em cardumes, aos centos, Pulgas da eternidade, os vermes fedorentos! Ai, no jazigo escuro, a esfarelar-me em pó, Consola-me uma ideia única, uma só: Não tornar a sofrer (oh podridão calada!) Nem de hemorróidas, nem de gases, nem de nada!...
Desaparece.
O DOIDO, na escuridão:
Que noite escura! Que noite escura! Bramem as ondas cavernosas... A grande armada vai largar... Oh, a armada do rei!... oh, as naus pavorosas Na escuridão, turbilhonando, a baloiçar!... São esquifes mortuários, São féretros com velas de sudários, Tumbas negras nas ondas a boiar!... Ai que gemidos, que alaridos De multidões na praia, olhando o mar!... Lá vem o rei... lá vem a côrte... e luzes, luzes De brandões, de tocheiros a sangrar... Vai a embarcar?... vai a enterrar?... Não trazem cruzes, Nem há sinos por mortos a dobrar... Oh, a lúgubre, estranha comitiva A bandada de espectros singular!... É gente morta?... é gente viva?... Procissões de defuntos a marchar!... Cortesãos, cavaleiros e soldados, Tudo esqueletos descarnados, Olhos de treva e crânios de luar!... Ladeiam côches fúnebres doirados... São os côches d'El-Rei... vai a enterrar?... Lá se apeiam as damas das liteiras... Gestos de manequins, rir de caveiras... Fitas e plumas sôltas pelo ar... Olha a raínha, vem em braços, morta e doida. Morta e doida a clamar que a vão matar!... E o rei!... olhem o rei!... que rei de entrudo!... Um porco em pé, com manto de veludo E c'roa na cabeça, a andar, a andar! Mas reparem... tem cornos! é cornudo! Dois chavelhos de boi no seu logar! Um rei, que é porco e tem chavelhos! Um rei, que é porco e tem chavelhos! Que fantasia! enlouqueci... ando a sonhar!... Mas bem no vejo! eu bem no vejo, C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!... ................................................. Cái de rastros, chorando, o povo inteiro, Beija-lhe a côrte as patas e o trazeiro... E êle a grunhir! e êle a roncar!... ................................................. Lá vão as naus... lá vai o rei com seus tesoiros... E lá ficam na praia, como agoiros, As multidões soturnas a ulular!... ................................................. ................................................. Olha uma águia rubra, uma águia bifronte, Incendiando o horizonte, A voar, a voar, a voar!... Ai dos rebanhos!... ai dos rebanhos!... Águia de extermínios, onde irás poisar?!