Versos Portuguese Abílio Manuel Guerra Junqueiro Scena X

Portuguese poem

Scena X

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*Os mesmos e Magnus*, que entra majestoso e solene.

O REI:

Chega ao calhar... Então, meu duque, a trabuzana Foi bôa... Por um triz, iam-nos à pavana!

MAGNUS, grandioso:

Valeu-lhe, meu Senhor, (dôa isto a quem dôa!) Haver três homens, como nós, junto da C'roa, Para a salvar dum grande abismo!... A situação...

O REI:

Ganhou hoje, meu duque, o Elefante e o Pavão.

MAGNUS:

Nem sei como exprimir a Vossa Majestade A alegria que sinto!... É de mais! que bondade! A grã-cruz do Pavão!... Nunca o julguei... Em suma, Feliz!... morro feliz... Já não há mais nenhuma!

O REI, a Ciganus:

E agora?

CIGANUS:

Meu Senhor, é dormir sem cuidados! Os mortos cemitério e os vivos...

OPIPARUS:

Enforcados.

CIGANUS:

Talvez que sim, talvez que não... É conforme: o rigor, a clemência, o perdão, Tudo às vezes convêm, tudo tem seu logar... Enforco-os, claro está, se os puder enforcar. Não podendo, enxovia; e, se a nação revôlta Clama contra a prisão... deixá-los hei à solta. Enforcados, melhor. Eu, gente que deteste, Quero em vez de canhões a guardá-la um cipreste. Mas, se matando arrisco a própria vida, não: Converto-me, de algoz furioso em bom cristão... Reinar, eis o importante; o modo é secundário. É conforme se pode; é dia a dia; vário. Fica melhor um rei num corcel de batalha, O chicote na mão, contemplando a canalha. Inspira assim terror, incute mêdo e fé. Não há, porêm, cavalo? É governar a pé. E, se ainda precisa atitudes mais chatas, É governar de toda a forma,--até de gatas! O caso é governar, seja lá como fôr: Com manhas de toupeira ou vôos de condor, Por caminho sinuoso ou caminho direito... Eu, para governar, a tudo me sujeito, Indo de cara alegre até ao sacrifício De ser exemplarmente honesto... por ofício!

Continua a tormenta. Prosseguem os vivas. Os cães ladrando sempre.

MAGNUS, sentencioso:

Nas vistas do marquês há pontos em que abundo, Pontos em que discordo. O mal é mais profundo! Talhemos com firmeza o mal pela raíz! Nas circunstâncias desastrosas do país, Quando um vento de insánia brava nos arrasta, Quando abusos de toda a ordem, toda a casta, Andam impunes; quando a moral e o direito Já não levam sequer à noção de respeito, Á noção do dever, urge com brevidade Dar fôrça à C'roa e dar prestígio à autoridade! Eu com rude franqueza o digo: o caso é sério! Nós vivemos (se isto é viver!) num baixo império! Olhem bem ao redor: uma orgia! um entrudo! Abocanha-se tudo, emporcalha-se tudo, Nem o sacrário da família se venera, Não há reputação, ainda a mais austera, Que a não manchem... um lodaçal, um tremedal de escombros, E nós a vermos isto e a encolhermos os ombros! É de mais! é de mais! Vamos todos a pique! É necessário um termo! é necessário um dique! Sursum corda! Que El-Rei leve a bandeira em punho! E inda há gente... inda há gente! inda há homens de cunho! Inda há muita aptidão, muita capacidade E muita honra!... O que é mister é uma vontade! Obre El-Rei com firmeza! obre El-Rei sem demora! Qual o cancro que dia a dia nos devora? Toda a gente que vê, toda a gente que pensa Põe o dedo na chaga e conclue: a descrença! Se o mal vem da descrença, ataque-se a questão! Religião, Senhor e mais religião! Deus e mais Deus! tendo nós Deus e a fôrça armada, Não há receio algum; dormirá descansada A monarquia. Deus, embora neste meio, Queiram ou não, é sempre Deus!... é ainda um freio!

OPIPARUS, galhofeiro:

E o profeta, que nos censura e nos fulmina, Tem palácio, grande estadão, mesa divina, É joisseur como dez banqueiros elegantes, E, facto escandaloso! a respeito de amantes Cultiva sobretudo (às vezes com seus p'rigos...) Esta especialidade: a mulher dos amigos!

MAGNUS, furioso:

Safa! que língua! que veneno!...

O REI:

E o duque atomatado! Como se não pudesse um ministro d'estado Regalar-se com vinhos bons ou fêmea alheia! Deixe-os morder de raiva. É tudo inveja, creia. Gosto dum vélho assim, danado e atiradiço... Um vélho folgazão... Simpatiso com isso. É cá dos meus... é cá dos meus...

MAGNUS, risonho e vaidoso:

Na juventude, Rapaz... como rapaz... vamos! fiz o que pude!... A crónica inda o lembra... Hoje o caso é diverso... Aos sessenta já custa a endireitar um verso!

O REI:

Maganão!

MAGNUS:

Hoje não!... Só em pequenas dozes... Falta o melhor... São mais as vozes do que as nozes...

O REI, gracejando:

Mas o que a mim me espanta, e não entra na bola, É sair-nos o duque um perfeito carola! Se a raínha estivesse, inda d'acôrdo, admito... Mas entre homens prègar sermões acho esquisito, Meu caro duque... Estou a vê-lo qualquer ano, Entrapado em burel, frade varatojano!

MAGNUS, solene:

Distingo, meu Senhor, distingo: sou cristão, Co'as rédeas do govêrno e do poder na mão. Católico e de lei, sob o ponto de vista Administrativo, e nada mais. Como estadista, Eu considero a Igreja uma pedra angular Da ordem! Quero o trono achegado ao altar! A Igreja tem prestígio! a Igreja é um sustentáculo! Convêm ao scetro ainda a amizade do báculo! O homem público em mim, o defensor da C'roa, É desta opinião. Sustento-a e julgo-a bôa. Mas cá dentro, no fôro interno, a sós comigo, Eu, o particular e o filósofo, digo-o Alto e bom som, digo-o de cara e sem temor: Não há ninguêm! ninguêm! mais livre pensador! Eu admiro Voltaire!... Eu encontro-me em dia Com a marcha do globo e da filosofia.

O REI, galhofando:

Se a Raínha lhe sente ideas desordeiras...

MAGNUS:

Leio Voltaire, mas quero os frades!...

OPIPARUS:

E eu as freiras...

CIGANUS:

Por mim desejo tropa, em logar de irmandades. Mas, se a raínha quer os frades, venham frades. Com certo geito e condições, inda afinal Se atamanca de Deus um bom guarda rural...

Trovão retumbante. A caverna da noite incendeia-se de oiro, abrasada a relâmpagos. Ais e lamentos. Gritos ferozes de soldados. Uivam os cães. Sente-se ao longe um rumor imenso de multidões que debandam.

MAGNUS, meditando:

Que demónio!... cheira a chamusco... Volta a dança... Olha que brincadeira!... Isto, se a coisa avança, Vai tudo raso, vai tudo em cacos pelo ar! Não me sinto aqui bem... Nada! ponho-me a andar!... Uma história qualquer...

Ao rei:

Meu Senhor, a duquesa... (Foi dêste abalo repentino, esta surpresa...) Achou-se mal, deu-lhe um febrão... em tal estado, Que não gosto... não gosto... inspira-me cuidado... E se El-Rei o permite...

O REI:

Ignorava... Ora essa, Meu caro duque! Ande ligeiro, vá depressa... Boa noite... Dormir um pouco, e às cinco e meia Na toirada. Curro catita! É de mão cheia!

O rumor longínquo, de maré humana, avança, trágico, na escuridão profunda. Surge na praia uma nau gigante, embandeirada de negro. Uivam os cães.