Portuguese poem
Scena Vi
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Entram Ciganus e Opiparus acompanhando o fantasma, em meio de escudeiros armados e com archotes. O doido aparece tal qual o descrevemos: enorme, cadavérico, envolto em farrapos, as longas barbas brancas flutuando. Numa das mãos o bordão. Na outra um vélho livro em pedaços. Lembra um doido e um profeta, D. Quixote e o rei Lear. O olhar, cavo e misterioso, é de sonâmbulo e de vidente. O rei empalidece como um sudário. Os cães ululam, furiosos e trémulos.
CIGANUS:
Eis o doido... É curioso êste Matusalem... Como se chama? onde nasceu? de onde vem? Ignora tudo... Canta e soluça...
OPIPARUS:
De resto, Não tem fúrias, nem anda armado: um doido honesto.
O REI:
Que estafermo!... que monstro!... Um espião, talvez...
OPIPARUS:
Deixou-se maniatar, prender, qual uma rês Submissa... Não, um doido...
CIGANUS:
Um doido extravagante... Quem és? Despacha a língua... olha que estás diante D'el-rei... Diz o teu nome...
OPIPARUS:
O teu nome, vilão!
O DOIDO, absorto:
Como me chamo... como me chamo?... Ai! não me lembro... perdi o nome na escuridão...
CIGANUS:
Sempre a mesma resposta inalterável...
O REI:
Diz De donde vens? onde nasceste? em que país? Nada temas... El-rei é bom, podes falar...
O DOIDO, sonâmbulo:
Não tenho alma... não tenho pátria... não tenho lar...
O REI:
Traz um livro na mão, reparai...
CIGANUS, tomando o volume, que o doido entrega, pesaroso:
Deixa ver... Deixa-mo ver... um livro antigo... Sabes ler? Tu sabes ler?
OPIPARUS:
Anda, responde, não te encolhas...
CIGANUS, abrindo o livro:
Nem princípio, nem fim; trapos todas as fôlhas.
Folheando e lendo:
«Esta é a ditosa pátria minha amada... ........................................ Alguns traidores houve algumas vezes... ........................................ Porque essas honras vãs, êsse oiro puro Verdadeiro valor não dão... ........................................ A que novos desastres determinas De levar êstes reinos, esta gente?... ........................................ ..............apagada e vil triteza...»
O REI:
Parece verso...
CIGANUS, restituindo o livro:
Um alfarrábio fedorento, Coisa de prègador, talvez... cheira a convento...
CIGANUS:
Quem sabe se algum vélho ermitão alienado, Dêsses que vivem sós, longe do povoado, Em ermos alcantis ou cavernas de fera...
OPIPARUS:
Onde dormes?
O DOIDO:
Dormir!... dormir!... Oh, quem me dera Dormir!... Oh, quem me dera esta cabeça vaga, Esta cabeça tonta, arrimá-la a uma fraga, E quedar-me p'ra sempre esquecido no chão!... E os mortos dormem... e eu morri... então... então Porque não durmo?!...
Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de Bragança, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum escuro passado, abolido e longínquo:
Olha os bandidos... os traidores!... Bem nos conheço!... fôram êles... subtilmente
Rosnam os cães, enfurecidos.
Com drogas más e com venenos de serpente, Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco, Me levaram a alma e me tornaram louco... Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!... A minha alma!... a minha alma!... Ouço gemidos... São talvez dela... tem-na aqui encarcerada... Onde estás, onde estás, alma desamparada?!... Grita por mim!... onde é que estás?!... Ai, quero emfim Ver-te comigo... Onde é que estás?!...
Os cães, truculentos, investem com êle. Resignado e com desprêzo:
Ah, cães danados... cães d'el-rei... mordei, mordei Êste corpo sem alma!... Ah fôsse outrora... outrora!... E ai dos cachorros e do dono!... Assim... agora... Mordei, mordei, ladrai, despedaçai sem p'rigo A minha carne e os meus andrajos de mendigo!...
CIGANUS:
Coitado! um noitibó maluco e mansarrão...
OPIPARUS:
Delírio de tristeza e de perseguição...
O REI:
Astrologus talvez o conheça...
CIGANUS:
O farçante! Prègador, impostor, mágico, nigromante, Meio raposa e meio c'ruja...
O REI:
É tal e qual... perfeito... Mas o demónio do mostrengo tem seu geito Para enigmas... Quem sabe!... Ide-o chamar... talvez...