Portuguese poem
Scena V
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
O rei, inquieto, preocupado, senta-se ao fogão. Os cães abeiram-se, uivando medrosos. Redobra a tormenta. Pestanejam, contínuos, relâmpagos formidáveis.
O DOIDO, no escuro, em voz plangente de embalar crianças:
Os vivos tem mêdo aos mortos, Que andam de noite ao luar... Fantasmas de mortos São enganos mortos... Deixem-nos andar... deixem-nos andar!...
Os vivos tem mêdo aos mortos, Que andam sonhando a penar... Quimeras de mortos São desejos mortos... Deixem-nos sonhar... deixem-nos sonhar!...
Os vivos tem mêdo aos mortos, Que andam cantando a chorar... As canções dos mortos São suspiros mortos... Deixem-nos cantar... deixem-nos cantar!...
O REI:
O doido! o doido! o doido!
A MESMA VOZ, na escuridão:
Não lhes tenham mêdo... deixem-nos cantar...