Versos Portuguese Abílio Manuel Guerra Junqueiro Resposta Ao Sillabus

Portuguese poem

Resposta Ao Sillabus

by

Listen in the reader

Fanaticos, ouvi as coisas que eu vos digo:

Dentro d'essa prisão cruel do dogma antigo A consciencia não póde estar paralisada, Como n'um velho catre uma velha entrevada. Tudo se modifica e tudo se renova: Da escura podridão nojenta de uma cova Sae uma flôr vermelha a rir alegremente. A ideia tambem muda a pel' como a serpente. O que era hontem grão é hoje a seara immensa. A Verdade sahiu d'esse casulo--a Crença, Assim como sahiu do velho o mundo novo. Recolher outra vez a aguia no seu ovo É impossivel; quebrou o involucro ao nascer. Como é que pòdes tu ó Egreja, pretender, Cerrando na tua mão um box enorme--o inferno, Levar aos encontrões o espirito moderno, Leval-o para traz, para o passado escuro, Como um bandido leva um homem contra um muro?! A trajectoria immensa e fulva da verdade Não se póde suster com a facilidade Com que Jusué susteve o sol no firmamento. Atirar a justiça, a ideia, o pensamento Ás fogueiras da fé, ó bonzos, é impossivel: Reduzirdes a cinza o que? O incombustivel! Loucos! ide dizer ao velho Torquemada Que queime se é capaz n'um forno uma alvorada! .................................... Sacristas, Ajuntae, reuni os balandraus papistas, As fardas sepulcraes do exercito da fé, A capa de Tartufo, a loba de Claret, A cogula do monge, enfim, tudo que seja Côr da nolte; arrancae o velho crepe á egreja, Dos caixões descosei os panos funerarios, Tisnae co'a vossa lingua as alvas e os sudarios, E se inda precisaes mais sombras, mais farrapos, Pedi ao corvo a aza, o ventre immundo aos sapos, Fabricae d'isto tudo uma cortina immensa, E tapando com ella o sol da nossa crença, Nem mesmo assim fareis o eclipse da aurora! A consciencia não é a besta d'uma nora. Lembrai-vos que o Progresso é um carro sem travão, E que apagar em nós o facho da razão É o mesmo que apagar o sol quando flameja Com um apagador de lata d'uma egreja.

Bonzos, podeis dizer á humanidade--Pára!-- Co'a foice excomunhão podeis ceifar a ceara Da heresia; podeis, segundo as ordenanças, Metter pedras de sal na boca das creanças, Fazer do Deus do amor o Deus barbaridade, Chamar á estupidez irmã da caridade E jesuita a Jesus e Christo a Carlos sete; Vós podeis discutir junto da campa o frete, Recoveiros de Deus, o frete que é preciso Para irdes levar lá cima ao paraiso A alma d'um defunto; ó bonzos, vós podeis Ir pedir emprestado um exercito aos reis E defender com elle o papa, o vaticano, Do cerco que lhe faz o pensamento humano, Pondo adiante d'um dogma a boca d'um canhão; Podeis encarcerar dentro da inquisição Galileu; vós podeis, anões, contra os ciclopes Roncar latim, zurrar sermões, brandir hyssopes, Que não conseguireis que a Liberdade vista A batina pingada e rota d'um sacrista, Que o direito se ordene, e que a Justiça queira Ir a Roma tomar, contricta, o véo de freira!