Portuguese poem
Scena Ii
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
*Os mesmos e o rei*
Os três cães acodem festivos ao monarca
O REI, sombrio e melancólico, repelindo os cães:
Que noite!
CIGANUS:
Vendaval furioso!
OPIPARUS:
Noite rara Para uma ceia de champagne e mulher cara...
O REI:
Faz-me nervoso a noite...
MAGNUS:
É da atmosfera espessa... Eléctrica... Atordôa e desvaira a cabeça...
O REI, apontando o pergaminho:
O tratado?
CIGANUS:
O tratado.
MAGNUS:
Um pouco duro... El-rei...
O REI, indiferente:
Seja o que fôr... seja o que fôr... assinarei...
Vai ao balcão, ficando abstracto, a olhar a noite.
MAGNUS:
Não há dúvida; el-rei anda enfêrmo... é evidente...
OPIPARUS:
Galhofeiro, jovial, bom humor permanente, Scéptico, dando ao demo as paixões e a tristeza, Caçador, toireador, conviva heróico à mesa... Pobre do rei... quem o diria!... que mudança! Oxalá que a loucura, a vir, lhe venha mansa...
CIGANUS:
O ratão do cronista é que o tem posto assim, Com mistérios em grego e aranzeis em latim...
Trovão formidável.
O REI, voltando do balcão:
Que noite!
MAGNUS:
Uma trovoada enorme!... Causa horror!...
Ciganus desdobra o pergaminho e vai ler o tratado.
O REI:
Leitura inútil... Deixa lá... Seja o que fôr... Seja o que fôr... adeus!... assinarei...
CIGANUS:
Perfeito. Não há balas? Resignação; não há direito. Se entra no Tejo de surpresa um coiraçado, Quem vai metê-lo ao fundo, quem? A nau do Estado Com bispos, generais, bachareis, amanuenses, Pianos, pulgas, mangas d'alpaca e mais pertences? A esquadra? vai a esquadra rial, um meio cento De alcatruzes, bidés e banheiras d'assento? Sacrificar a vida à honra? Acho coragem, Mas a honra sem vida é de pouca vantagem; Não se goza, não vale a pena. A vida é boa... Defendamos a vida... e salvemos a C'roa.
MAGNUS, eloqùente:
E salvemos a C'roa! A vida eu da-la-ia Pela honra da Pátria e pela Monarquia! Somos filhos de heróis! mas nesta conjuntura A resistência é um crime grave, uma loucura! Um país decadente, isolado na Europa, Sem recursos alguns, sem marinha e sem tropa, Tendo no flanco, àlerta, o velho leão de Espanha, Arrojar doidamente a luva à Gran-Bretanha, Oh, pelo amor de Deus! digam-me lá quem há-de Assumir uma tal responsabilidade?!!... A pátria de Albuquerque, a pátria de Camões Abolida era emfim do mapa das nações! Guardemos nobremente uma atitude calma! Recolhamos a dôr ao íntimo da alma, E o castigo do insulto, o prazer da vingança A nossos netos o leguemos, como herança! Que Deus há-de punir (é justiceiro e é bom) A moderna Cartago, a triunfante Albion! Saiba, porêm, El-rei que o brio português O defendemos nós ante o leopardo inglês, À fôrça de critério e sisuda energia, No campo do direito e da diplomacia! Com as Instituìções por norte e por escudo, Fizemos tudo quanto era possível!--tudo!!
OPIPARUS, ao rei, galhofando:
Quer o duque dizer que ambiciona o colar Do Elefante Vermelho e do Pavão Solar...
MAGNUS, com indignação e nobreza:
Não requeiro mercê tão grandiosa e tão alta, Conquanto seja ela a que ainda me falta. O Elefante e o Pavão! Um colar e uma cruz A que sómente os reis e os príncipes tem jus! Não ouso... Mas, se um dia a gran munificência Da C'roa houver por bem, (florão duma existência!) Conceder-ma!................................... Que, deixem-mo explicar: eu, medalhas e fitas, Não é por ser vaidoso ou por serem bonitas, Que as ostento... Plebeu nasci, de bom quilate... Não o escondo a ninguêm: meu pai era alfaiate. Ora, num peito humilde e franco uma medalha, Como que atesta e diz ao homem que trabalha, Ao povo que moireja em seu ofício duro, Que hoje na monarquia é dado ao mais obscuro Guindar-se à posição mais alta e mais egrégia, Por direito,--que é nosso! e por mercê,--que é régia! Escritura de luz que em vivo amplexo abarca O Povo e a Sob'rania augusta do Monarca!
CIGANUS:
Meu caro duque, muito bem... Vamos agora, Resolvida a questão, assinar sem demora O pergaminho...
O REI:
Assinarei... Deixem ficar.
CIGANUS:
E emquanto às convulsões do leão popular, Como diria o nobre duque, afoitamente Respondo pelo bicho: um cão ladrando à gente: Dobrei guardas, minei as pontes à cautela, E fica a artilharia em volta à cidadela. Não há p'rigo nenhum. Durma El-rei sem temor. Boa noite, Senhor...
MAGNUS, curvando-se até ao chão:
Meu Senhor!
OPIPARUS:
Meu Senhor...
Saem os três.
MAGNUS, vai pensando:
Ora, se o filho do alfaiate qualquer dia Inaugurava ainda a quinta dinastia!... Eu sentado no trono!... Eu rei de Portugal!!... Que, rei ou presidente, emfim é tudo igual... Muita finura agora e muita vigilância, Observando e aguardando as coisas a distância!... Magnus! lume no ôlho e não te prejudiques... Eu suceder, caramba! a D. Afonso Henriques!!...