Portuguese poem
Scena Vii
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Opiparus vai em procura do cronista. O doido, sonâmbulo, vagueia em tôrno do salão, contemplando os retratos. O rei ao lume, junto dos cães, segue-o com os olhos.
CIGANUS, meditando:
Bem complicado êste cronista!... Quem o fez Teve artes de engendrar singular criatura, Contraditória, ondeante, incerta, ambígua, obscura... Há duas almas no mostrengo: a que arquitecta Quimeras vãs e sonhos vãos, a do poeta Lunático, imbecil, místico, iluminado, Essa deixá-la andar, que me não dá cuidado!, Mas a outra, a ambiciosa, a gulosa, a mesquinha, A refalsada, (a verdadeira!) a igual à minha, Essa mais devagar, Saltamontes... cautela!... Ôlho nela... ôlho nela... O rei é tudo, o rei fraco... êste cronista Discursa bem... convem não o perder de vista... Inútil. Afinal as duas almas ao cabo Destroem-se uma à outra, é como Deus e o Diabo. E emquanto que ambas a ferver, drogas contrárias, Em mil combinações, imprevistas e várias, Se desagregam, eu, tranqùilo e resoluto, Como tenho uma só, imagino e executo. Ah, o cronista ambíguo e magro e macilento Não pasmarei de o ver ainda num convento... Bem capaz de morrer, jejuando, ermitão... A loucura subtil envolve-o... Que trovão! Que relâmpago!... Brada o vento... ulula o mar... E êste doido esquisito e singular, a olhar... A olhar... Que leve o demo a noite e a ventania...
O REI, seguindo o doido com os olhos:
Pois agora embirrou! não larga a dinastia...
O DOIDO, absorto:
Fantasmas de mortos São enganos mortos... Não lhes tenham mêdo... deixem-nos sonhar...