Portuguese poem
Fragmento de um canto em cordas de bronze
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Deixai que o pranto esse pallor me queime, Deixai que as fibras que estalárão dôres Desse maldito coração me vibrem A canção dos meus ultimos amores!
Da delirante embriaguez de bardo Sonhos em que afoguei o ardor da vida, Ardente orvalho de febris pranteios, Que lucro á alma descrida?
Deixai quo chore pois. — Nem loucas venhão Consolações a importunar-me as dòres; Quero a sós murmural-a á noite escura A canção dos meus ultimos amores!
Da ventania ás rabidas lufadas A vida maldirei em meu tormento — Que é falsa, como em prostitutos labios Um osculo visguento.
Escarneo! para essas muitas virgens Como flòres — românticas e bellas — Mas que no seio o coração tem arido, Insensivel e estupido como ellas!
Quero agreste vibrar ruja-me as cordas Mais selvagens d’est’harpa — quero accentos D’aspero som como o ranger dos mastros Na orchestra dos ventos!
Corre feio o trovão nos céos bramindo; Vão torvos do relampago os livores — Quero ás rajadas do tufão gemèl-a A canção dos meus ultimos amores!
Vem pois, meu fulvo cão! ergue-te asinba, Meu derradeiro e solitario amigo! — Quero me ir embrenhar pelos desvios Da serra — ao desabrigo...
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