Portuguese poem
És tu, alma divina, essa Madona
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
A MINHA MÃE
Dos sonhos no luar, a mente pura Só delira ambições pelo teu filho!
Pensa em mim, como em tu saudoso penso, Quando a lua no mar se vai doirando: Pensamento de mãe é como o incenso Que os anjos do Senhor beijam passando.
Criatura de Deus, ó mãe saudosa, No silêncio da noite e no retiro A ti voa minh'alma esperançosa E do pálido peito o meu suspiro!
Oh! ver meus sonhos se mirar ainda De teus sonhos nos mágicos espelhos! Viver por ti de uma esperança infinda E sagrar meu porvir nos teus joelhos!
E sentir que essa brisa que murmura As saudades da mãe bebeu passando! E adormecer de novo na ventura Aos sonhos d'oiro o coração voltando!
Ah! se eu não posso respirar no vento, Que adormece no vale das campinas,
A saudade de mãe no desalento, E o perfume das lágrimas divinas,
Ide ao menos, de amor meus pobres cantos, No dia festival em que ela chora, Com ela suspirar nos doces prantos, Dizer-lhe que eu também sofro agora!
Se a estrela d'alva, a pérola do dia, Que vê o pranto que meu rosto inunda, Meus ais na solidão lhe não confia E não lhe conta minha dor profunda,
Que a flor do peito desbotou na vida E o orvalho da febre requeimou-a, Que nos lábios da mãe na despedida O perfume do céu abandonou-a!...
Mas não irei turvar as alegrias E o júbilo da noite sussurrante, Só porque a mágoa desnuou meus dias, E zombou de meus sonhos delirantes,
Tu bem sabes, meu Deus! eu só quisera Um momento sequer lhe encher de flores,
Contar-lhe que não finda a primavera A doirada estação dos meus amores;
Desfolhando da pálida coroa Do amor do filho a perfumada flor Na mão que o embalou, que o abençoa, Uma saudosa lágrima depor!
Sufocando a saudade que delira E que as noites sombrias me consome, O nome dela perfumar na lira, De amor e sonhos coroar seu nome!...