Portuguese poem
Lélia
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Passou talvez ao alvejar da lua, Como incerta visão na praia fria... Mas o vento do mar não escutou-lhe Uma voz a seu Deus!...ela não cria!
Uma noite, aos murmúrios do piano Pálida misturou um canto aéreo... Parecia de amor tremer-lhe a vida Revelando nos lábios um mistério!
Porém, quando expirou a voz nos lábios, Ergueu sem pranto a fronte descorada,
Pousou a fria mão no seio imóvel, Sentou-se no divã... sempre gelada!
Passou talvez do cemitério à sombra Mas nunca numa cruz deixou seu ramo, Ninguém se lembra de lhe ter ouvido Numa febre de amor dizer: "eu amo!"
Não chora por ninguém... e quando, à noite, Lhe beija o sono as pálpebras sombrias Não procura seu anjo à cabeceira E não tem orações, mas ironias!
Nunca na terra uma alma de poeta, Chorosa, palpitante e gemebunda Achou nessa mulher um hino d'alma E uma flor para a fronte moribunda.
Lira sem cordas não vibrou d'enlevo, As notas puras da paixão ignora, Não teve nunca n'alma adormecida O fogo que inebria e que devora!
Descrê. Derrama fel em cada riso, Alma estéril não sonha uma utopia...
Anjo maldito salpicou veneno Nos lábios que tressuam de ironia.
É formosa contudo. Há dessa imagem No silêncio da estátua alabastrina Como um anjo perdido que ressumbra Nos olhos negros da mulher divina.
Há nesse ardente olhar que gela e vibra, Na voz que faz tremer e que apaixona O gênio de Satã que transverbera, E o langor pensativo da Madona!
É formosa, meu Deus! Desde que a vi Na minh'alma suspira a sombra dela... E sinto que podia nesta vida Num seu lânguido olhar morrer por ela.