Portuguese poem
Meu anjo
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Meu anjo tem o encanto, a maravilha Da espontânea canção dos passarinhos... Tem os seios tão alvos, tão macios Como o pêlo sedoso dos arminhos.
Triste de noite na janela a vejo E de seus lábios o gemido escuto... É leve a criatura vaporosa Como a frouxa fumaça de um charuto.
Parece até que sobre a fronte angélica Um anjo lhe depôs coroa e nimbo... Formosa a vejo assim entre meus sonhos Mais bela no vapor do meu cachimbo.
Como o vinho espanhol, um beijo dela Entorna ao sangue a luz do paraíso... Dá morte num desdém, num beijo vida E celestes desmaios num sorriso!
Mas quis a minha sina que seu peito Não batesse por mim nem um minuto,... E que ela fosse leviana e bela Como a leve fumaça de um charuto!