Portuguese poem
Minha amante
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Coração de mulher, qual filomela, É todo amor e canto ao pé da noite. JOÂO DE LEMOS
Fulcite me floribus... quia amore langueo. Cant. Canticorum
Ofegando interrompem! quantas noites Fui ditoso contigo!
E quantas vezes te embalei tremendo Sobre os joelhos meus! Quanto amorosa Unindo à minha tua face pálida De amor e febre ardias!
Oh! volta inda uma vez! ergue-se a lua, Formosa como dantes, é bem noite, Na minha solidão brilha, de novo, Estrela de minh'alma!
Desmaio-me de amor, descoro e tremo... Morno suor me banha o peito langue... Meu olhar se escurece e eu te procuro Com os lábios sedentos!
Oh! quem pudera sempre em teus amores Sobre teu seio perfumar seus dias, Beijar a tua fronte e em teus cabelos Respirar ebrioso!
És a coroa de meus anos breves, És a corda de amor d'íntima lira,
O canto ignoto, que me enleva em sonhos De saudosas ternuras!
E tu és como a lua: inda és mais bela, Quando a sombra nos vales se derrama, Astro misterioso à meia-noite Te revela a minh'alma!
Ó! minha lira, ó viração noturna, Flores, sombras do vale, à minha amante... Dizei que nesta noite de desejos E de ternuras morro!