Versos Portuguese Álvares de Azevedo O editor

Portuguese poem

O editor

by (1831–1852)

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A poesia transcrita é de Torquato, Desse pobre poeta enamorado Pelos encantos de Leonora esquiva, Copiei-a do próprio manuscrito; E, para prova da verdade pura Deste prólogo meu, basta que eu diga Que a letra era um garrancho indecifrável, Mistura de borrões e linhas tortas! Trouxe-ma do Arquivo lá da lua E decifrou-ma familiar demônio...

Demais... infelizmente é bem verdade Que Tasso lastimou-se da penúria De não ter um ceitil para a candeia.

Provo com isso que do mundo todo O sol é este Deus indefinível, Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre, Mais santo do que os Papas — o dinheiro!

Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos, Filinto Elísio e Tolentino o sonham, Foi o Deus de Bocage e d'Aretino, — Aretino! essa incrível criatura Lívida, tenebrosa, impura e bela, Sublime... e sem pudor, onda de lodo Em que do gênio profanou-se a pérola, Vaso d'ouro que um óxido terrível Envenenou de morte, alma — poeta Que tudo profanou com as mãos imundas E latiu como um cão mordendo um século...

Quem não ama o dinheiro? Não me engano Se creio que Satã, à noite, veio

Aos ouvidos de Adão adormecido, Na sua hora primeira, murmurar-lhe Essa palavra mágica da vida, Que vibra musical em todo o mundo,

Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso Eva não se tentava pelas frutas, Pela rubra maçã não se perdera: Preferira decerto o louro amante Que tine tão suave e é tão macio!

Se não faltasse o tempo a meus trabalhos, Eu mostraria quanto o povo mente Quando diz que — a poesia enjeita e odeia As moedinhas doiradas. É mentira!

Desde Homero (que até pedia cobre), Virgílio, Horácio, Calderón, Racine, Boileau e o fabuleiro LaFontaine E tantos que melhor decerto fora De poetas copiar algum catálogo, Todos a mil e mil por ele vivem E alguns chegaram a morrer por ele! Eu só peço licença de fazer-vos Uma simples pergunta: — na gaveta

Se Camões visse o brilho do dinheiro... Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton Se o tivessem nas rotas algibeiras, Acaso blasfemando morreriam?