Portuguese poem
O poeta moribundo
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Poetas! amanhã ao meu cadáver Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava... O aroma dos currais, o bezerrinho As aves que na sombra suspiravam E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, por que tremes? Se esta lira Nas minhas mãos sem força desafina, Enquanto ao cemitério não te levam, Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira O marreco piando na agonia... Como o cisne de outrora... que gemendo Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, por que tremes? Vejo a morte, Ali vem lazarenta e desdentada... Que noiva!... E devo então dormir com ela? Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado! Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela, Que dessa fúria o gozo, amor eterno Se ali não há também amor de velha Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas, Cleópatras, Helenas, Eleonoras... Lá se namora em boa companhia, Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores, Amigos de no vinho ter consolos, Foram com Satanás fazer colônia, Antes lá que do Céu sofrer os tolos!
Ora! e forcem um'alma qual a minha, Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça, A cantar ladainha eternamente E por mil anos ajudar a missa!