Portuguese poem
Vagabundo
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Eat, drink, and love; what can the rest avail us? BYRON, DON JUAN.
Ando roto, sem bolsos nem dinheiro; Mas tenho na viola uma riqueza: Canto à lua de noite serenatas... E quem vive de amor não tem pobreza.
Não invejo ninguém, nem ouço a raiva Nas cavernas do peito, sufocante, Quando, à noite, na treva em mim se entornam Os reflexos do baile fascinante.
Namoro e sou feliz nos meus amores, Sou garboso e rapaz... Uma criada Abrasada de amor por um soneto, Já um beijo me deu subindo a escada...
Oito dias lá vão que ando cismando Na donzela que ali defronte mora... Ela ao ver-me sorri tão docemente! Desconfio que a moça me namora...
Tenho por meu palácio as longas ruas, Passeio a gosto e durmo sem temores... Quando bebo, sou rei como um poeta, E o vinho faz sonhar com os amores.
O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro, Minha mãe é a lua macilenta E a preguiça a mulher por quem suspiro.
Escrevo na parede as minhas rimas, De painéis a carvão adorno a rua... Como as aves do céu e as flores puras Abro meu peito ao sol e durmo à lua.
Sinto-me um coração de lazzaroni, Sou filho do calor, odeio o frio, Não creio no diabo nem nos santos... Rezo a Nossa Senhora e sou vadio!
Ora, se por aí alguma bela Bem dourada e amante da preguiça, Quiser a nívea mão unir à minha Há de achar-me na Sé, domingo, à missa.