Versos Portuguese Antero de Quental Accordando

Portuguese poem

Accordando

by

Listen in the reader

Em sonho, ás vezes, se o sonhar quebranta Este meu vão soffrer; esta agonia, Como sobe cantando a cotovia, Para o céo a minh'alma sobe e canta.

Canta a luz, a alvorada, a estrella santa, Que ao mundo traz piedosa mais um dia... Canta o enlevo das cousas, a alegria Que as penetra de amor e as alevanta...

Mas, de repente, um vento humido e frio Sopra sobre o meu sonho: um calafrio Me accorda.--A noite é negra e muda: a dor

Cá vela, como d'antes, ao meu lado... Os meus cantos de luz, anjo adorado, São sonho só, e sonho o meu amor!

MÃE...

Mãe--que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio, E com as mãos piedosas ate o fio Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve comsigo, adormecido, Ao passar pelo sitio mais sombrio... Me banhe e lave a alma lá no rio Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem--dava Minha esteril sciencia, sem receio, E em debil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, docil tambem, Se eu podesse dormir sobre o teu seio, Se tu fosses, querida, a minha mãe!

Na capella

Na capella, perdida entre a folhagem, O Christo, lá no fundo, agonisava... Oh! como intimamente se casava Com minha dor a dor d'aquella imagem!

Filhos ambos do amor, igual miragem Nos roçou pela fronte, que escaldava... Igual traição, que o affecto mascarava, Nos deu supplicio ás mãos da villanagem...

E agora, ali, em quanto da floresta A sombra se infiltrava lenta e mesta, Vencidos ambos, martyres do Fado,

Fitavamo-nos mudos--dor igual!-- Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual Mais pallido, mais triste e mais cançado...

Velut Umbra

Fumo e scismo. Os castellos do horizonte Erguem-se, á tarde, e crescem, de mil cores, E ora espalham no céo vivos ardores, Ora fumam, vulcões de estranho monte...

Depois, que formas vagas vêm defronte, Que parecem sonhar loucos amores? Almas que vão, por entre luz e horrores, Passando a barca d'esse aereo Acheronte...

Apago o meu charuto quando apagas Teu facho, oh sol... ficamos todos sós... É n'esta solidão que me consumo!

Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas, Bem vos entendo a cor, pois, como a vós, Belleza e altura se me vão em fumo!