Versos Portuguese Antero de Quental Ad Amicos

Portuguese poem

Ad Amicos

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Em vão luctamos. Como nevoa baça, A incerteza das cousas nos envolve. Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, Nas suas proprias redes se embaraça.

O pensamento, que mil planos traça, É vapor que se esvae e se dissolve; E a vontade ambiciosa, que resolve, Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor d'um presentir divino;

Mas n'um deserto só, arido e fundo, Ecchoam nossas vozes, que o Destino Paira mudo e impassivel sobre o mundo.

A um crucifixo

Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente, O horizonte futuro e viste, em tua mente, Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos, E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente? Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente Arrojáras de nova á campa os membros lassos...

Agora, como então, na mesma terra erma, A mesma humanidade é sempre a mesma enferma, Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario...

E agora, como então, viras o mundo exangue, E ouviras perguntar--de que servio o sangue Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?--

Desesperança

Vae-te na aza negra da desgraça, Pensamento de amor, sombra d'uma hora, Que abracei com delirio, vae-te, embora, Como nuvem que o vento impelle... e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça, Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora D'essa alma o sangue, com que vigora, Como amigo commungue á mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança, Emquanto a dor eternamente assiste. E só engano nunca a desventura!

Se era silencio soffrer fôra vingança!.. Envolve-te em ti mesma, ó alma triste, Talvez sem esperança haja ventura!