Versos Portuguese Antero de Quental (*Do Poema Vasco*)

Portuguese poem

(*Do Poema Vasco*)

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1.^o FRAGMENTO

Esta quadra d'amor quanto nos punge, Com tão doce pungir! Como sorrindo Nos mata de desejos; nos esmaga Sob o peso infinito dos anhelos, Que esta vida e mil outras não fartaram! Esta quadra d'amor, com seus sorrisos, Quanto nos punge o peito, ai, quanto mata!

Tal é a essencia do Amor; tal Deus ha posto Um veneno no mal, na flôr um áspide! Prazer e dôr, sereis talvez um unico, Unico sêr, que nos penetra e abraza N'um fogo que nos doe, mas que é tão doce? Punhal, que ferindo o peito, nos consola, Mas, que a affagar nos vae roubando a vida, Antegosto do que é o céo e o inferno? Será isto o amor? será?... quem sabe?

Talvez! Se é laço universal e unico Deve o bem como o mal juntar n'um todo; Se é vida é tambem morte; se é saudade, É desejo tambem; e se algum anjo O creou, ha demonio que o perturba; Se é um sol que nos brilha dentro d'alma, Tambem queima e devora, tambem mata! E é isto amor? será! será! quem sabe?

De vida mais completa é antegosto, De melhor existir que além começa: Talvez! então o amor será a morte? Triste noiva, é mistér esp'rar-lhe a vinda Para amar e gozar e viver muito?! Celebre-se o hymeneo sobre uma campa: Aguarde-se a hora extrema, como aurora De um bem, que além da vida só começa; E contando os momentos como sec'los, O primeiro dos dias seja o ultimo... Mas será isto amor? será!... quem sabe?

Talvez!... Mas quando a lousa funeraria Rangendo, cobre um corpo estremecido: Quando a terra só pode dar-lhe os osc'los, Que inda ha pouco lhe davamos convulsos, Que vem, que vem aos olhos? Vem só lagrimas E ao peito vem só dôr! O lucto, o pranto Se assentam sobre as campas, não a esp'rança! E será isto amor? será!... quem sabe?

Mas as lousas são frias. Quem pernoita Na deveza onde só o eterno somno Se dorme... não! ninguem por lá pernoita! As dôres, como gazes, se evaporam; No ambiente da vida os ais não podem Muito tempo eccoar; ha tanta lagrima, Tantas consolações para os que soffrem! Não duram, não!... a mão que enchuga o pranto Beija-se... e mais... e mais... encontra-se a alma Com quem se casa a pobre solitaria: E a outra! a outra lá! partiu-se o laço... E é isto amor? será! será?... quem sabe?

Feliz do que viaja em mundo novo!... Triste do que ficou sobre uma lousa Assentado a chorar: o que é da esp'rança? Nunca sahiu da campa voz amiga A consolar a dôr! Fica-lhe apenas Um premio, triste premio! o das lagrimas: Esse--se foi constante--hade cingir-lhe A fronte com a c'roa... do martyrio... E será isto amor? será!... quem sabe? ........................................

2.^o FRAGMENTO

........................................ Será! será! Que importa, se é tão doce, Se mata com um sorriso, entre caricias! Vae, razão fria! vae... isto ou aquillo Que importa seja o amor?! É sempre bello --Um momento sequer--gozar a vida.

É bello o amor; é bella a vida; é bello Tudo aonde o Senhor a mão ha posto... E o Senhor fez o mundo! e a ti, ó noite, Noite de primavera, deu-te estrellas, Que são almas no espaço a procurar-se; A ti, mulher, a ti deu-te o mysterio De matar ou dar vida... e a mim, sim!--creio-- Inda hade dar-me uma hora de ventura! ........................................ Oh! dae-me a taça do veneno doce, Que mata embriagando! Dae-me prestes Uma taça de amor aonde libe!...

Abril, 1861.