Portuguese poem
Uma Amiga
Aquelles, que eu amei, não sei que vento Os dispersou no mundo, que os não vejo... Estendo os braços e nas trevas beijo Visões que á noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento Que a saudade dos mortos... que eu invejo... Passam por mim, mas como que têm pejo Da minha soledade e abatimento!
D'aquella primavera venturosa Não resta uma flor só, uma só rosa... Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel--tu, como d'antes, Inda volves teus olhos radiantes... Para ver o meu mal... e escarnecel-o!
A uma mulher
Para tristezas, para dor nasceste. Podia a sorte por-te o berço estreito N'algum palacio e ao pé de regio leito, Em vez d'este areal onde cresceste:
Podia abrir-te as flores--com que veste As ricas e as felizes--n'esse peito: Fazer-te... o que a Fortuna ha sempre feito... Terias sempre a sorte que tiveste!
Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos, Que não são d'este mundo e onde eu leio Uns mysterios tão tristes e infinitos,
Tua voz rara e esse ar vago e esquecido, Tudo me diz a mim, e assim o creio, Que para isto só tinhas nascido!
Voz do Outomno
Ouve tu, meu cançado coração, O que te diz a voz da Natureza: --«Mais te valera, nú e sem defeza, Ter nascido em asperrima soidão,
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão Frio e cruel da mais cruel deveza, Do que emballar-te a Fada da Belleza, Como emballou, no berço da Illusão!
Mais valera á tua alma visionaria Silenciosa e triste ter passado Por entre o mundo hostil e a turba varia,
(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste) Com odio e raiva e dor... que ter sonhado Os sonhos ideaes que tu sonhaste!»--
Sepultura romantica
Ali, onde o mar quebra, n'um cachão Rugidor e monotono, e os ventos Erguem pelo areal os seus lamentos, Ali se ha-de enterrar meu coração.
Queimem-no os sóes da adusta solidão Na fornalha do estio, em dias lentos; Depois, no inverno, os sopros violentos Lhe revolvam em torno o arido chão...
Até que se desfaça e, já tornado Em impalpavel pó, seja levado Nos turbilhões que o vento levantar...
Com suas luctas, seu cançado anceio, Seu louco amor, dissolva-se no seio D'esse infecundo, d'esse amargo mar!
1864--1874