Versos Portuguese Antero de Quental Vi

Portuguese poem

Vi

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Só quem teme o Não-ser é que se assusta Com teu vasto silencio mortuario, Noite sem fim, espaço solitario, Noite da Morte, tenebrosa e augusta...

Eu não: minh'alma humilde mas robusta Entra crente em teu atrio funerario: Para os mais és um vacuo cinerario, A mim sorri-me a tua face adusta.

A mim seduz-me a paz santa e ineffavel E o silencio sem par do Inalteravel, Que envolve o eterno amor no eterno luto.

Talvez seja peccado procurar-te, Mas não sonhar comtigo e adorar-te, Não-ser, que és o Ser unico absoluto.

Contemplação

(A Francisco Machado de Faria e Maia)

Sonho de olhos abertos, caminhando Não entre as formas já e as apparencias, Mas vendo a face immovel das essencias, Entre ideas e espiritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando, Visões sem ser, fragmentos de existencias... Uma nevoa de enganos e impotencias Sobre vacuo insondavel rastejando...

E d'entre a nevoa e a sombra universaes Só me chega um murmurio, feito de ais... É a queixa, o profundissimo gemido

Das cousas, que procuram cegamente Na sua noite e dolorosamente Outra luz, outro fim só presentido...

Lacrimae rerum

(A Tommaso Cannizzaro)

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte, Quantas vezes tenho eu interrogado Teu verbo, teu oraculo sagrado, Confidente e interprete da Sorte!

Aonde vão teus soes, como cohorte De almas inquietas, que conduz o Fado? E o homem porque vaga desolado E em vão busca a certeza que o conforte?

Mas, na pompa de immenso funeral, Muda, a noite, sinistra e triumphal, Passa volvendo as horas vagarosas...

É tudo, em torno de mim, duvida e luto: E, perdido n'um sonho immenso, escuto O suspiro das cousas tenebrosas...