Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal (Amor De Cosinha)

Portuguese poem

(Amor De Cosinha)

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Afinal D. Juan vinha, hoje, a morrer d'uma indigestão. (Palavras d'um grande realista)

Cançado de vãos fogos de Bengalla, Como Pansa odeei o Pensamento, E abandonei os ideaes de salla --Pelo amor da cosinha succulento!

E os meus fortes desejos sensuaes, --Desejos que hão de dar na morte escura!-- Soluçam só--ó deuses immortaes! Só pela ama d'um florído cura.

Ella é o forte e esplendido ideal! Seu cabello é mais fino do que o ouro, E a sua voz mais bella que o metal, E os cantos catholicos do côro.

Os seus labios vermelhos e discretos Lembram romãs das cercas clericaes, E os seus olhos sombrios são mais pretos Do que o latim escuro dos missaes!

Se, acaso, o mundo nota-lhe alguns erros, Compensa-os para mim com bons presuntos; Os olhos d'ella fazem mais defuntos, Dos que o padre acompanha nos enterros!

Fugiu de mim a vã melancholia!... Ella é franca e alegre como a vinha... E em quanto o padre está na sachristia Eu devoro-lhe as aves na cosinha.

--Mas, hontem, que gosando o seu amor Dormia, santamente, entre seus braços, Bateu, tragicamente, o bom prior, E a escada rangeu sob os seus passos...

O coração pulsou-me acelerado; Ella estacou trémula e suspensa.... Mas levou-me a um sitio agasalhado, --E dormi toda a noute na dispensa.