Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal (Imitado De Th. Gautier)

Portuguese poem

(Imitado De Th. Gautier)

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Monges de Zurbaran! ó magros solitarios, Que ao longo deslisaes dos grandes claustros frios, Correndo eternamente as contas dos rosarios!

Dos remorsos sentis os santos desvarios? Que mal vos fez a Carne, algozes de tonsura? Espectros monacaes cavados e sombrios?

Essa materia vil--que é divina esculptura, E que o Justo vestiu nas santas tradições, Com que lei e razão é que bradaes--Impura?

Ó santos! eu entendo as allucinações! Os chumbos em fusão, as abrasadas lenhas, As grelhas, a polé, e as fauces dos leões!...

As rodas infernaes que rasgam as entranhas, Tudo o que Roma ideou;--mas o que eu não entendo É o suicidio e a fé sob essas estamenhas!

Por que pois, sempre assim, um suicidio horrendo? E toda a noute a carne, entre as vis disciplinas, Dilacerar até o sangue ver correndo?

Não são só as crueis macerações mofinas, E o continuo bater nos peitos angulosos, Que em tuas letras só, ó Christo! nos ensinas!

Julgais que Deus só quer aos grandes ulcerosos! E que essa morte lenta, esse ar austero e grave, Vos faça abrir mais cedo os ceus gloriosos?

Julgais que tal suicidio os grandes crimes lave? --Largae das magras mãos, unidas, as caveiras, Vossas covas, mortaes, deixai que um outro as cave!

O espirito immortal ergue-se entre as fogueiras; Mas continuo insultar a Carne com desdem, É rebaixar-te, ó Deus, a charlatão de feiras!

E comtudo que força e que energia teem, Esses monges de Deus, em vivo amortalhados, A viver sem mulher, sem paes, e sem ninguem!

Tão moços! e, assim já, tão velhos e cavados! Por horisonte um claustro e um muro,--indifferentes, Sósinhos a resar ante os Crucificados!

Teus frades, Lesueur, são d'estes differentes! O triste Zurbaran soube exprimir melhor Os extases do olhar e as cabeças doentes!

E a vertigem do ceu, o tedio, o desamor Da Carne, que lhes dá aureolas febris,-- E esse aspecto que faz gelar-nos de pavor!

Como o duro pincel lhes pinta a flor de liz Dos cilicios! e a luz dos olhos mortecidos, E essas rugas que os faz magros, sublimes, vis!

Como as pregas alonga aos habitos compridos! Como ás faces lhes cava a pallidez da terra, Como se fossem já uns mortos estendidos!

Quando as vizões do Ceu nos extases descerra, Ao Crucifixo os pés beijando soluçantes, E açoutando-se qual o mar açouta a serra!...

Ou quando passeaes pelos claustros gigantes, Nem mesmo a propria sombra atraz deixando ao muro, --Sempre, ó monges! vos pinta eguaes e semelhantes!

Com duas tintas só--claro livido, e escuro, Só duas posições--a recta e a que inclina, Pintou a vossa historia e o vosso viver duro!

A forma, o raio, a côr, a luz que nos fascina, Nada são para vós, magros indifferentes, Por que o Ceu vos desvaira e a Cruz vos allucina!

E assim mudos passaes nas Biblias reverentes... Julgando sempre ouvir nos ceus que se descobrem, Trovejar de repente as trombetas dos crentes.

Ó monges! ó fieis! não entendeis o homem! Talvez a herva cresça, agora, em vossos peitos, Pois bem, que dizeis hoje aos vermes que vos comem?

Que sonhos maus fazeis n'esses extremos leitos? Choraes o ter gastado o tempo que nos foge, Entre essas solidões e esses muros estreitos?!...

Monges, o que haveis feito, inda o farieis hoje?!