Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *Lisboa*

Portuguese poem

*Lisboa*

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Cette ville est au bord de l'eau; on dit qu'elle este batie en marbre... (Baudelaire)

De certo, capital alguma n'este mundo Tem mais alegre sol e o ceu mais cavo e fundo, Mais collinas azues, rio d'aguas mais mansas, Mais tristes procissões, mais pallidas creanças, Mais graves cathedraes--e ruas, onde a esteira Seja em tardes d'estio a flor de larangeira!

A Cidade é formosa e esbelta de manhã!-- É mais alegre então, mais limpida, mais sã; Com certo ar virginal ostenta suas graças, Ha vida, confusão, murmurios pelas praças; --E, ás vezes, em roupão, uma violeta bella Vem regar o craveiro e assoma na janella.

A Cidade é beata--e, ás lucidas estrellas, O Vicio á noute sae ás ruas e ás viellas, Sorrindo a perseguir burguezes e estrangeiros; E á triste e dubia luz dos baços candieiros, --Em bairos sepulchraes, onde se dão facadas-- Corre ás vezes o sangue e o vinho nas calçadas!

As mulheres são vãs; mas altas e morenas, D'olhos cheios de luz, nervosas e serenas, Ebrias de devoções, relendo as suas Horas; --Outras fortes, crueis, os olhos côr d'amoras, Os labios sensuaes, cabellos bons, compridos... --E ás vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burguezes banaes são gordos, chãos, contentes, Amantes de Cupido, avaros, indolentes, Graves nas procissões, nas festas e nos lutos, Bastante sensuaes, bastante dissolutos; Mas humildes crhistãos!--e, em lugubres momentos, Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

E assim ella se apraz n'um somno vegetal, Contraria ao Pensamento e hostil ao Ideal!-- --Mas mau grado assim ser cruel, avara, dura, Como Nero tambem dá concertos á lua, E, em noutes de verão quando o luar consolla, Põe ao peito a guitarra e a lyrica violla.

No entanto a sua vida é quasi intermitente, Afunda-se na inação, feliz, gorda, contente; Adora inda as acções dos seus navegadores Velhos heroes do mar; detesta os pensadores; Faz guerra a Vida, á Acção, ao Ideal--e ao cabo É talvez a melhor amiga do Diabo!