Portuguese poem
Titiro
by Antonio Feliciano de Castilho (1800–1875)
Deozes, tocai o peito de Mirtilo Porque não sáia máu quando fôr grande. Hoje, entrando na mata, o vi la dentro Andar armando aos passaros. Que pena, Disse em mim; não ser passaro um momento; Não poder ir correndo o bosque aos pios, E dizendo em cada arvore “Cautella Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo; Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!” Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes. Vou-me por entre as moutas rastejando Até ao ouco e immenso castanheiro, Que abre em seu tronco uma portada de heras, E se nomêa a casa de Silvano. Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos Lá por cima na cópa papeavão, Cuido que adivinhando o que eu faria. Encósto a boca á fresta carcomida, Que está fronteira ao portico da entrada, E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.” Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda; Vendo tudo em socego ás redes torna. Com voz mais estrondosa e mais horrenda, Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.” Não esperou terceira: arroja tudo, Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.” Somio-se; á terra pulo, espreito o mato, Acho as redes, os presos sólto, os mortos Levo-os onde ôlho de ave os não descubra: Encho-as de pedras, na torrente as lanço, E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes, Lhe digo, de que morte escapo agora! Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia Os dentes, bracejava uma alta fouce, Vinha a saír das sombras do arvoredo; Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro. —“Es tu que andas armando ás minhas aves? Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes Ja te lá vão por esse rio abaixo, E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”— E então vem para mim, co’a fouce aos lanços Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa, Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas, Eu sou Titiro, o filho de Menalca, As tuas aves amo, e temo os Deozes: Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido! Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.” —“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse, Nem sabia que tu ... fallemos baixo Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo Passou, mas outra vez não te aventures, Que eu bem sei como o vi, não te perdoa. Deixa ás pobres das aves innocentes Divertir-te e cantar; nada mais querem; Não tens razão, não teus de as perseguires. Quanto ás redes, eu quero consolar-te: Ouve Mirtilo, acceita este cestinho De cana entretecida em juncos verdes, E este meu cajadinho em boa altura Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo, Enfiei-lhe no braço o meu cestinho De cana entretecida em verdes juncos, E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo Me abraçou, e saltando de contente, Jurou-me nunca mais armar ás aves.
SILVIA.
Glicera por vaidosa he que ama as flôres: Apanha-as para si não para os Deozes, Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso. Quando em nosso jardim vejo Glicera, Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores, He seu costume; enfado-me, sorri-se; Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete: “Que te servem por ora estas floritas? Deixa passar mais cinco primaveras, E então sim, nem mais uma hei de furtar-te; Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.” Coitado de quem he como eu menina, Que se manda esperar por primaveras! Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas. Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas De logo vir Glicera, a presumida, Que furta e vai cantando; ajoelhei-me Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres. E disse: “Como as arvores tem ninfas, Que lhes morão la dentro e as aviventão, Ha ninfazinhas a velar nas flores. Ninfazinhas das flores, escutai-me: Se a rega, com que as folhas aquecidas Vos refresquei ha pouco, vos foi grata, Olhai por vós, fazei com que Glicera, Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça; Apparecei-lhe como a mim, por sonhos, Vestidas de mil côres, perfumadas, Pequenas, mui mimosas, e só outras Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo. Dizei-lhe como os Deozes vos crearão Para amores de zefiros, recreio De borboletas e olhos, e formosas Copeiras do formoso mel doirado: Dizei-lhe que tão bella e curta vida Não se deve encurtar, que as deshumanas Tem máo fim, que apezar de passageiras, Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos: Que se tornar sacrílega a colher-vos, Vossos fragrantes ultimos suspiros Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.” Como eu isto dizia, entrou Glicera: Murchas trazia as rosas de seu rôsto, Não rio, nem colheo nada, e suspiráva. Penada de a assim ver, beijei-a, e disse: “Se alguma d’estas flores te contenta, Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde) Ja não quero mais flores, Mopso ingrato As que ultimas lhe dei deo-as a outrem: Como as flores me engeita hei de engeita-lo.” Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera, Fallei verdade ou não? nascem as flores Só para as nossas mãis, e para os Deozes, Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.”
MENALCA.
Basta meus filhos, basta; não ha sombras Tão gratas no verão, cheiro de flores Tão suave, ou tão ledo canto de aves, Que me recrêem como os vossos versos. Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos: Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados; Mas os Deozes virtude: alcatifais-me De bem viçosa esp’rança o meu declivio: Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes. Antevejo a florir-me a sepultura ...
DAFNE.
Entremos na cabana: aquella nuvem Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento, Não tarda muito algum ligeiro orvalho.
NOTA AO IDILLIO.
Na muita rama que ao Idillio decotei para esta segunda edição, ninguem, por mais que a cate, poderá achar fruto, nem sequer uma triste flôr, se a não he o passo que para aqui traslado, da falla de Alexis pag. na primeira edição; ácerca do qual e de tudo o mais quanto supprimi ou accrescentei, releva reclamar pela maior indulgencia dos leitores. Não ma negará quem ja alguma vez houver experimentado como de todas as couzas, que parecendo tenues, são agras e laboriosas, a mais agra, laboriosa, e não sei se diga impossivel, he poetar e metrificar as fallas da infancia: caminho he esse que estreitissimo corre por entre precipicios, sendo maravilha que ahi os maiores engenhos se tenhão, e sigão sem caír ou para a direita ou para a esquerda. O primeiro e melhor juiz do homem candido he a sua consciencia: a minha me diz que os trez filhos de Menalca nem sempre, antes poucas vezes, fallão como conviria: de sobejo são poetas para meninos e rusticos; e tanto, que se não fôra a resalva, que logo do comêço lhes vai lançada, de serem filhos de improvizador, e por elle doutrinados no canto, não haveria perdão que de ridiculos os salvasse.
Segue-se o excerpto, com todos seus defeitos e aleijões de nascença:
O MENINO ALEXIS.
Ver-me no bosque de prazer me enchia; Quando Amintas, chamando-me da gruta, Aonde estão de musgo revestidas As imagens das Náiades da fonte, Assim me disse, dando-me uma rosa: —“Eu te darei uma pequena ovelha, Toda branca, na testa só malhada, Se fores ter com Egle, e lhe entregares A rosa, que te dou, se lhe disseres “Egle, Amintas por ti morre de amores.” Beija-a depois na face, e continúa; “Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” ¿Não a vês la ao longe entre os salgueiros, Apascentando as candidas novilhas? Corre; e não tardes a buscar a ovelha.”— Eu fui correndo a ella, dei-lhe a rosa, Beijei-lhe a face, e disse-lhe: “Este beijo, Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” Nada me respondeo, sorrio-se, e as faces Como a rosa encarnadas lhe ficárão. Abraçando-a depois, lhe disse alegre, “Egle, Amintas por ti morre de amores.” Rio-se outra vez, e dando-me na face, “Oh como tu és máo! vai-te, me-disse, Não posso ... não, não quero acreditar-te.” Nada lhe respondi, voltei á gruta, Onde o Pastor contente e alvoraçado Me deo sem custo uma pequena ovelha Toda branca, na testa só malhada. ¡Como a minha ovelhinha é bella, e mansa! Andei com ella todo o dia ao pasto Pela relva do bosque, etc.