Portuguese poem
Os treze anos
by Antonio Feliciano de Castilho (1800–1875)
Já tenho treze anos, que os fiz por Janeiro: madrinha, casai-me com Pedro Gaiteiro.
Já sou mulherzinha; já trago sombreiro, já bailo ao Domingo com as mais no terreiro.
Já não sou Anita, como era primeiro; sou a Senhora Ana, que mora no outeiro.
Nos serões já canto, nas feiras já feiro, já não me dá beijos qualquer passageiro.
Quando levo as patas, e as deito ao ribeiro, olho tudo à roda, de cima do outeiro.
E só se não vejo ninguém pelo arneiro, me banho co’as patas Ao pé do salgueiro.
Miro-me nas águas, rostinho trigueiro, que mata de amores a muito vaqueiro.
Miro-me, olhos pretos e um riso fagueiro, que diz a cantiga que são cativeiro.
Em tudo, madrinha, já por derradeiro me vejo mui outra da que era primeiro.
O meu gibão largo de arminho e cordeiro, já o dei à neta do Brás cabaneiro,
dizendo-lhe: "Toma gibão domingueiro, de ilhoses de prata, de arminho e cordeiro.
"A mim já me aperta, e a ti te é laceiro; tu brincas co’as outras e eu danço em terreiro."
Já sou mulherzinha; já trago sombreiro, já tenho treze anos, que os fiz por Janeiro.
Já não sou Anita, sou a Ana do outeiro; madrinha, casai-me com Pedro Gaiteiro.
Não quero o sargento, que é muito guerreiro, de barbas mui feras e olhar sobranceiro.
O mineiro é velho; não quero o mineiro: Mais valem treze anos que todo o dinheiro.
Tão-pouco me agrado do pobre moleiro, que vive na azenha como um prisioneiro.
Marido pretendo de humor galhofeiro, que viva por festas, que brilhe em terreiro;
Que em ele assomando co’o tamborileiro, logo se alvorote o lugar inteiro.
Que todos acorram por vê-lo primeiro, e todas perguntem se ainda é solteiro.
E eu sempre com ele, romeira e romeiro, vivendo de bodas, bailando ao pandeiro.
Ai, vida de gostos! ai, céu verdadeiro! ai, Páscoa florida, que dura ano inteiro!
Da parte, madrinha, de Deus vos requeiro: Casai-me hoje mesmo com Pedro Gaiteiro.