Versos Portuguese Antonio Feliciano de Castilho II (Rainha dos Portuguezes)

Portuguese poem

II (Rainha dos Portuguezes)

by (1800–1875)

Listen in the reader

Rainha dos Portuguezes!...

Rainha pelos Portuguezes!...

Que Has feito dessa herança de virtudes que Teu Pai Comprou com a vida para Ti?

Que Has feito da felicidade de Teu Povo a Ti confiada?

Que lhes Déste pelas suas esperanças?

Esse malfadado Povo não tinha mais que a Deos e a Ti.

Tu lhe Faltas: e Deos punirá nelle os teus peccados.

Rainha pelos Portuguezes!...

Juraram eles Comtigo o pacto de suas venturas: e a Ti, pelo que de Ti deviam esperar, Te deram inviolabilidade: e ainda, blasfemos em suas palavras de amor por Ti, disseram que Eras—Sagrada.—

Elles obedeceram tanto; elles cumpriram tanto, e de mais, as condições desse pacto firmado a sangue de suas honrosas feridas de batalha, que a fome, sómente a fome lhes poude arrancar um brado supplicante, e afflicto... e não muito alto dado... não muito pungente... para não magoar Teu coração... porque Te julgavam sua Mãi!...

A fome, sómente a fome lhes inspirou uma queixa humilde.

E Tu, Rainha pelos Portuguezes!...

Tu Atiraste ao Povo, que tinha fome, uma pedra com que os dentes lhe Quebraste, que elle esfaimado entre-abrira, julgando que lhe Atiravas algum pedaço de pão, que sobejava de tua lauta mesa, que elle paga!

Rainha pelos Portuguezes!...

Como foi que Tu Cumpriste o pacto Assignado por Ti, com lagrimas de saudade a teu Pai votadas, e por teu Povo com sangue derramado por Ti?...

Qual era a condição de Tua inviolabilidade? Cumpriste-a Tu?

Não És Tu mesma a confessar que Transgrediste a lei pela qual Foste feita Rainha?

Tu mesma não Prometteste a esse Povo esfaimado Derogar leis que Fizeste contrarias á lei que Te fez de misera proscrita uma Rainha?

Tu mesma, Submettendo-Te a condições aviltantes não Te Degradaste já de Tua alta dignidade?

Tu mesma não És que Derrubaste essa muralha de corações devotos, que Te amavam, que palpitavam por Ti, e inviolavel Te faziam e Te guardavam?

Tu mesma não Foste que Deixaste cair o Teu sceptro de ferro sobre essas cabeças, que Te veneravam sagrada; e quasi que Te adoravam divina?

E ás boccas esfaimadas Atiras Tu uma dura pedra!...

E sobre as linguas sequiosas Gottejas Tu, risonha de escarneo, o fel amargo de Tuas ingratidões!...

E nas faces de fome pallidas, que enrubeceram pelo Teu desamor, Tu Mandaste dar por Estrangeiros muita bofetada!...