Versos Portuguese Antônio Gonçalves Dias Se Eu Fosse Querido!

Portuguese poem

Se Eu Fosse Querido!

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Se eu fosse querido d’um rosto formoso, Se um peito extremoso--podesse encontrar, E uns labios macios, que expirão amores E abrandão as dores--de alheio penar;

A tantos encantos minha alma rendida, Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar: Constante a seo lado, seos sonhos divinos Aos sons dos meos hymnos--quizera embalar.

Depois, quando a morte viesse impiedosa Da amante extremosa--meos dias privar, De funda saudade minha alma rendida Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar.

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A FLÔR DO AMOR.

Já lento o passo, no cahir da tarde, Lá nos desertos d’abrasada areia, Que o vento agita, porêm não recreia, Da caravana o conductor parou. Armão-se ápressa tendas alvejantes, Rumina placido o frugal camêlo; Porêm a nuvem d’arabes errantes Se achega á presa, que de longe olhou.

E já, tomada a refeição nocturna, Junto a fogueira, que derrama vida, Descanção todos da penosa lida Á voz canora, que o cantor alçou! Confuso o ouvido um borborinho alcança, As armas toma o arabe prudente; Mas logo pensa, regeitando a lança: «Foi o grunhido que o chacal soltou.»

Ouvidos todo e curioso enlevo, Toma de novo a retomar seo posto; Pela fogueira alumiado o rosto, Bebendo as vozes que o cantor soltou; Simelha a terra, quando aberta em fendas Da noite o orvalho sequiosa espera; E o corsel arabe encostado ás tendas Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.

«Algures cresce (o trovador cantava) Sempre fresca e virente e sempre bella, Por influxo e poder de maga estrella, Mimosa, pura e delicada flôr! Jazendo em sitio escuso e solitario, Esforços é mister p’ra conhecel-a, Que diz a forte lei do seo fadario Que a não descubra acaso o viajor.

«Alva do albor dos lirios odorosos, Tem a modestia da violeta esquiva, E o prompto retrahir da sensitiva, Que parece vestir-se de pudor! Assim, á luz da cambiante aurora, Mudando um pouco a resplendente alvura, De uns toques de carmim s’esmalta e córa A graciosa e pudibunda flôr.

«Faz-se mais puro o ar, mais brando o clima, Onde cresce; amenisão-se os logares, Tornão se menos agros os pezares E menos viva, e quasi nulla a dôr; Fresca e branda alcatifa o chão matisa, Com doce murmurio as aguas correm, E o leve sopro do correr da brisa Volupia embebe em magico frescor!

«Feliz aquelle que a encontrou na vida, Que onde ella nasce timida e fagueira Não s’ennovela a mó d’atra poeira, Tangida pelo súmiu’ abrasador! Alli sorri-se oasis venturoso, Qu’entre deleites o viver matisa, E ao que vai triste, afflicto e sem repouso Chama a descanço do comprido error!

«Feliz e mais que se, perdido, achára Conforto e auxilio no kathá, seo guia, Que o leva a fonte perennal e fria Onde se apaga o sitibundo ardor. Tão feliz, qual talvez se o precedesse Nos desertos a benção do propheta, Que por fanal nocturno lhe accendesse Maga estrella de limpido fulgor.

«Ai! porêm do que a vê, e a não conhece, Do que a suspira em vão, e a em vão procura, Ou que achando-a, desiste da ventura Por não entrar no oasis seductor. Essa flôr descoberta por acerto Nunca mais a verás! colhe, insensato, Colhe abrolhos da vida no deserto; Pois despresaste a que produz o amor!»

Assim cantava o trovador; e todos Ouvem-no com prazer de dôr travado, Que mais do que um talvez terá deixado Atraz de si a pudibunda flôr! No emtanto a nuvem d’arabes errantes Chega-se á presa, que avistou de longe; E dos corseis, que alentão offegantes, Precede a marcha turbido pavor!

E, nado o sol, aquelle que passava Pelos desertos d’abrasada areia, Que o rubro sangue de cruor rocheia, A um lado o rosto, pallido, voltou! Ninguem as mortes lastimaveis chora, Ninguem recolhe os restos insepultos, E o mesmo orvalho, que goteja a aurora, Sem borrifal-os, no areial ficou!

Quem saberá do seo destino agora? Ninguem! Somente em climas apartados Miseranda mulher lastima os fados De filho ou esposo, que jamais tornou! Talvez porêm, traz de montões d’areia, Nobre corsel sem cavalleiro assoma, E alonga a vista, de pezares cheia, Té onde a vida seo senhor deixou!

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A SUA VOZ.

Por que ficasse a vida Por o mundo em pedaços repartida. CAMÕES CANÇ. X.

Ouvi-a! A sua voz me despertava Tudo quanto de bom conservo n’alma. Retratado o pudor no rosto, E um suave dizer, um timbre doce De voz, uma piedade extreme e sancta, Que as mais profundas chagas animava, D’ambrozia e de mel lhe ungia os labios.

Ouvi-a! A sua voz era mais branda, Mais impressiva que o cantar das aves! A aragem qu’entre flores se deslisa E mal remeche a timida folhagem, A veia de chrystal que triste sôa, O saudoso arrulhar de mansas pombas, As proprias notas d’um cantar longinquo Ou de instrumento a conversar co’a noite, Menos que a sua voz impressionavão!

Menos que a sua voz!--Os dois mais fortes, Os dois mais puros sentimentos nossos --A saudade e o amor,--as mais profundas Das merencorias solidões da terra --As florestas e o mar,--um scismar vago, Um devaneio, uns extasis sem termo D’alma perdida por um céo de amores, Tanto como a sua voz não arroubavão!

Tanto como a sua voz!--somente o forão Dulces notas de mysticos salterios Té nós de um astro em outro repetidas. Foi isto o que senti, quando a escutava, Fluente, armoniosa, discorrendo Em pratica singela, sobre assumptos Diversos, sobre flores, menos bellas Do que o seo rosto, e céos, como ella, puros. Mas quem n’a ouvira conversar de amores Trouxera n’alma como uma harpa eolia, Dia e noite vibrando, Como um cantar dos anjos Do coração a estremecer-lhe as fibras!

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