Versos Portuguese Antônio Gonçalves Dias Se Se Morre De Amor!

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Se Se Morre De Amor!

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Se se morre de amor!--Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surprende De ruidoso saráu entre os festejos; Quando luzes, calor, orchestra e flores Assomos de prazer nos raião n’alma, Que embellezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Sympathicas feições, cintura breve, Graciosa postura, porte airoso, Uma fita, uma flor entre os cabellos, Um quê mal definido, acaso podem N’um engano d’amor arrebatar-nos. Mas isso amor não é; isso é delirio, Devaneio, illusão, que se esvaece Ao som final da orchestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes no morrer despedem: Se outro nome lhe dão, se amor o chamão, D’amor igual ninguem succumbe á perda.

Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração--abertos Ao grande, ao bello; é ser capaz d’extremos, D’altas virtudes, té capaz de crimes! Compr’hender o infinito, a immensidade, E a natureza e Deos; gostar dos campos, D’aves, flores, murmurios solitarios; Buscar tristeza, a soledade, o ermo, E ter o coração em riso e festa; E á branda festa, ao riso da nossa alma Fontes de pranto intercalar sem custo; Conhecer o prazer e a desventura No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto O ditoso, o miserrimo dos entes: Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem Para dizer que amor que em nós sentimos; Temer qu’olhos profanos nos devassem O templo, onde a melhor porção da vida Se concentra; onde avaros recatamos Essa fonte de amor, esses thesouros Inexgotaveis, d’illusões floridas; Sentir, sem que se veja, a quem se adora, Compr’hender, sem lhe ouvir, seos pensamentos, Seguil-a, sem poder fitar seos olhos, Amal-a, sem ousar dizer que amamos, E, temendo roçar os seos vestidos, Arder por afogal-a em mil abraços: Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porêm emfim transborda, Se tem na terra o galardão devido Em reciproco affecto; e unidas, uma, Dois seres, duas vidas se procurão, Entendem-se, confundem-se e penetrão Juntas--em puro céo d’extasis puros: Se logo a mão do fado as torna extranhas, Se os duplíca e separa, quando unidos A mesma vida circulava em ambos; Que será do que fica, e do que longe Serve ás borrascas de ludibrio e escarneo? Póde o raio n’um pincaro cahindo, Tornal-o dois, e o mar correr entre ambos; Póde rachar o tronco levantado E dois cimos depois verem-se erguidos, Signaes mostrando da alliança antiga; Dois corações porêm, que juntos batem, Que juntos vivem,--se os separão, morrem; Ou se entre o proprio estrago inda vegetão, Se apparencia de vida, em mal, conservão; Ancias crúas resumem do proscripto, Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive a propria ruina, Ao seo viver do coração,--ás gratas Illusões, quando em leito solitario, Entre as sombras da noite, em larga insomnia, Devaneiando, a futurar venturas, Mostra-se e brinca a apetecida imagem; Esse, que á dôr tamanha não succumbe, Inveja a quem na sepultura encontra Dos males seos o desejado termo!

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A MORTE É VÁRIA.