Portuguese poem
Espera!
Quem ha no mundo que afflicções não passe, Que dores não supporte? Mais ou menos d’angustias cabe a todos, A todos cabe a morte.
A vida é um o negro d’amarguras E de longo soffrer; Simelha a noite; mas fagueiros sonhos Podem de noite haver.
Por que então maldiremos este mundo E a vida que vivemos, Se nos tornamos do Senhor mais dignos, Quanto mais dôr soffremos?
Quantos cabellos temos, elle o sabe; Elle póde contar As folhas que ha no bosque, os grãos d’areia Que sustentão o mar.
Como pois não será elle comnosco No dia da afflicção? Como não ha de computar as dores Do nosso coração?
Como ha de ver-nos, sem piedade, o rosto Coberto d’amargura; Elle, senhor e pae, conforto e guia Da humana creatura?
Se o vento sopra, se se move a terra, Se iroso o mar fluctúa; Se o sol rutila, se as estrellas brilhão, Se gyra a branca lúa;
Deos o quiz, Deos que mede a intensidade Da dôr e da alegria, Que cada ser comporta--n’um momento D’arroubo ou d’agonia!
Embora pois a nossa vida corra Alheia da ventura! Alem da terra ha céos, e Deos protege A toda creatura!
Viajor perdido na floresta á noite, Assim vago na vida; Mas sinto a voz que me dirige os passos E a luz que me convida.
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A SAUDADE.
Saudade, ó bella flor, quando te faltem Coração ou jardim, onde tu cresças; Vem, vem ter commigo; Deixa os que te não seguem, Terás em peito amigo Lagrimas, que te reguem, Espaço, em que floresças.
Das pegadas da ausencia tu despontas, Entre as memorias cresces do passado, Quando um objecto amado Quando um logar distante, Noite e dia, Nos enluta e apouquenta a fantasia. Vem, ó Saudade, vem A mim tambem Consolar de gemidos suspirosos E de partidos ais! Oh! seja a punição dos insensiveis Não te sentir jamais!
Propicia Deosa, e se não fosse a esperança, Deosa melhor da vida; qu’insensato, A quem mitigas turbidos pezares Haverá tão ingrato Que te não queime incenso em teos altares? O presente o que é?--Breve momento D’incommodo ou desgraça Ou de prazer, que passa Mais veloz que o ligeiro pensamento. Véo escuro, Que nem sempre a illusão nos adelgaça, Nos encobre os caminhos do futuro. O que nos resta pois?--Resta a saudade, Que dos passados dias De magoas e alegrias Balsamo sancto extrahe consolador! Resta a saudade, que alimenta a vida Á luz do facho que adormenta a dôr!
Hera do coração, memoria delle, Ó Saudade, ó rainha do passado, Simelhas a romantica donzella De roupas alvejantes Nas ruinas de castello levantado: Grinaldas fluctuantes, Que das fendas brotarão, Movem-se do nordeste Ao sopro agudo e frio; Em quanto vendo-o ao longe o senhorio, De posses decahido, D’invernos alquebrado, Recorda triste os annos que passarão!
Em que plagas inhospitas e duras Não me tens sido companheira e amiga? Em que hora, em que instante De folga ou de fadiga Já deixei de sentir o penetrante Espinho teo, a repassar-me todo D’um prazer melancholico e suave?
Pois nasces nos desertos da tristeza, Ó Saudade, ó rainha do passado! Quando te falte gleba, onde tu cresças, Vem, vem ter commigo; Deixa os que te não seguem, Terás em peito amigo Lagrimas, que te reguem, Espaço, em que floresças!
Entra em meo coração, occupa-o todo, Fibra por fibra enlaça-te com elle, Desce com elle á sepultura; e quando Jazer eu na eternidade, Minha flôr, minha saudade, Tu procura a aura celeste, Rompe a terra, transforma-te em cypreste, Qu’enlute o meo jazigo; E ao meneio das ramas funerarias, Meo derradeiro amigo, Descance morto quem viveo comtigo.
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