Portuguese poem
Não Me Deixes!
Debruçada nas aguas d’um regato A flôr dizia em vão Á corrente, onde bella se mirava.... «Ai, não me deixes, não!
«Commigo fica ou leva-me comtigo «Dos mares á amplidão, «Limpido ou turvo, te amarei constante; «Mas não me deixes, não!»
E a corrente passava; novas aguas Após as outras vão; E a flôr sempre a dizer curva na fonte: «Ai, não me deixes, não!»
E das aguas que fogem incessantes Á eterna successão Dizia sempre a flôr, e sempre embalde: «Ai, não me deixes, não!»
Por fim desfallecida e a côr murchada, Quasi a lamber o chão, Buscava inda a corrente por dizer-lhe Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flôr enleia, Leva-a do seo torrão; A afundar-se dizia a pobrezinha: «Não me deixaste, não!»
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ZULMIRA.
Sonhara-te eu na veiga de Granada, Tapetada de flores e verdura, Onde o Darro e Xenil no lento gyro Volvem a lympha pura.
Alli te vejo em leda comitiva Dos gentis cavalleiros do oriente, Quando, deposta a malha do combate, Vestem da paz a seda reluzente.
Alli te vejo n’um balcão sentada, Grande preço da maura architectura, Pejando as azas das nocturnas brisas D’um canto de ternura.
Alli te vejo, sim; mas mais me agrada O que se m’afigura n’outro instante, Ver-te em vistosa tenda d’ouro e sedas, Levantada no dorso do elefante.
E em roda, ao largo, o sequito pomposo D’eunuchos a teo gesto vacillantes Em cujas frontes negras se destacão Alvissimos turbantes.
E pergunto quem es?--Então me dizem Ciosos de guardar o seo thesouro, Nome tão doce aos labios, que parece Escrever-se em setim com letras d’ouro.
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A UMA POETIZA.
--Donde vens, viajor?-- --De longe venho. --Que viste? --Muitas terras. --E qual dellas Mais te soube agradar? --São todas bellas; Fundas recordações de todas tenho.
E admiraste o que? --Ah! onde as flores Cada vez a manhã tornão mais linda, Onde gemeo Paraguassú de amores E os echos fallão de Moema ainda;
Alli, Sapho christã, virgem formosa, A vida aos sons da lyra dulcifica: D’escutar a sereia harmoniosa Ou de vel-a, a vontade presa fica!
BAHIA--1852.
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ANGELINA.
É gentil e linda e bella, E eu sei que m’arrouba o vel-a Tão divina: A lyra seos cantos cesse; Mas minha alma não s’esquece D’Angelina!
Outro louve os seos cabellos, Cante a luz dos olhos bellos Que fascina; E o leve sorrir donoso Que irradia o rosto airoso D’Angelina!
Os dotes diga que apura, Quando em languida postura Se reclina; Que s’ergue, se acaso passa, Susurro que applaude a graça D’Angelina!
Que de amor quando suspira O bardo quebrara a lyra, De mofina; Que jamais poderão cantos Pintar ao vivo os encantos D’Angelina.
Que da sua alma a pureza Equipara-se á belleza Peregrina; Que amor seo throno tem posto N’alma, no talhe e no rosto D’Angelina.
Eu que não sei descrevel-a, Só sei que me arroubo ao vel-a Tão divina; A lyra seos cantos cesse, Mas minha alma não s’esquece D’Angelina!
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ROLA.
Desque amor me deo que eu lêsse Nos teos olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeo! Seja noite ou seja dia, Eu te procuro constante: Vem, oh! vem, ó meo amante, Tua sou e tu és meo!
Vem, oh vem, que por ti clamo; Vem contentar meos desejos, Vem fartar-me com teos beijos, Vem saciar-me de amor! Amo-te, quero-te, adoro-te, Abraso-me quando em ti penso, E em fogo voraz, intenso, Anceio louca de amor!
Vem, que te chamo e te aguardo, Vem apertar-me em teos braços, Extreitar-me em doces laços, Vem pousar no peito meo! Que, se amor me deo que eu lêsse Nos teos olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeo.
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