Versos Portuguese António Joaquim de Castro Feijó Descendo A Encosta Do Parnaso

Portuguese poem

Descendo A Encosta Do Parnaso

by (1859–1917)

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Quando moço, cantei, mas em formas discretas Que nunca o meu segredo ousassem revelar, Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar.

Feliz, o Amor... nem mesmo ephémero sorriso Deixou nessas canções memoria do seu rastro; Desditoso, ficou como um luar indeciso, Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.

A Dor, mal comprimida em gritos suffocados, --O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume-- Ennublou muita vez os meus olhos magoados, Mas se ao labio acudia, era apenas queixume...

Éstos do coração, sobresàltos do instincto, --Amor ideal, vehemente impulso do desejo,-- Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto, No meu verso expirar, como um simples arpejo.

Se a angustia me opprimia em continua tortura, Para allivio a esse mal, que ninguem consolava, Como alguem que a si proprio illudir-se procura, Precisando de ouvir a minha voz--cantava!

Echo do meu soffrer, de tão fundo partia, Que deixando ao passar todo o amargo travor, Essa voz, rara vez, murmurando trahia O secreto pungir da primitiva dor.

Mas de cada palavra ou gesto contrafeito Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca Os lamentos e os ais suffocados no peito, Todos os gritos vãos que morreram na boca!

No escrinio da Canção as lagrimas vertidas, Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma, Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas, A tremer no cristal transparente da Fórma.

Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste; Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza; A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste, Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.

Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio Da phrase que a primor o artista cinzelou, Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio, O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.

A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos; Muda em graça verbal todo o grito pungente; --Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos, Que a um sopro vão partir da pupilla dormente...

Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento, Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo... --Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!

D'esse beijo profundo, as angustias e as dores, Se em imagens procura o artista convertê-las, Espinhos entrelaça em grinaldas de flores, E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.

Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel, O espirito banal, nunca pode sentir, A mágoa que por trás da palavra insensivel, Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!

Só almas d'eleição commungam no mysterio Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova, Como á flor que sorri num chão de cemiterio, O amargo coração que se desfaz na cova.

Só ellas, através d'um molde tão restricto Como esse em que a palavra as emoções fixou, Alcançam entrever não sei quê d'infinito No minuto de sonho em que a Dor se embalou...