Portuguese poem
S.^{ta} Iria
by António Pereira Nobre (1867–1900)
N'um rio virginal d'agoas claras e mansas, Pequenino baixel, a santa vae boiando... Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças E, diluido, ve-se as agoas aloirando.
Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças, Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando, E, com a graça etherea e meiga das crianças, Formosa Iria vae boiando, vae boiando...
Á lua, cantam as aldeãs de Riba-Joia, E, ao verem-na passar, phantastica barquinha, Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»
Ella entra, emfim, no Oceano... E escuta-se, ao luar, A mãe do pescador, rezando a ladainha Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar...
Leça, 1885.
*Enterro de Ophelia*
Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar... Deixal-a! (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou...) Como padres orando, os choupos formam ala, Nas margens do ribeiro onde ella se afogou...
Toda de branco vae, n'esse habito de opala, Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou, Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla, D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!...
O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella, Que a perseguia sempre, em palacio e na rua, Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...
Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros, E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua, Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!
Leça, 1888.
*Ballada do Caixão*
O meu vizinho é carpinteiro, Algibebe de Dona Morte: Ponteia e coze, o dia inteiro, Fatos de pau de toda a sorte: Mogno, debruados de velludo Flandres gentil, pinho do Norte... Ora eu que trago um sobretudo Que já me vae a aborrecer, Fui-me lá, hontem: (era Entrudo, Havia immenso que fazer!...) —Olá, bom homem! quero um fato, Tem que me sirva?—Vamos ver... Olhou, mexeu na caza toda... —Eis aqui um e bem barato.
—Está na moda?—Está na moda. (Gostei e nem quiz apreçal-o: Muito justinho, pouca roda...) —Quando posso mandar buscal-o? —Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro: (Poz-se o bom homem a aplainal-o...)
Ó meus amigos! salvo-erro, Juro-o pela alma, pelo céu! Nenhum de vós, ao meu enterro, Irá mais dandy, olhae! do que eu!
Pariz, 1891.
*Á Toa*
O Primeiro Homem
Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha! Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.