Portuguese poem
Os Mortos
by António Pereira Nobre (1867–1900)
Seculos tombam uns sobre outros, como blocos, E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!
Porto, 1885.
*A Vida*
Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes! Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes! Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor! Ó olhos negros como noites, como poços! Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos! Ó puros como o céu! ó tristes como levas De degredados!
Ó Quarta-feira de Trevas!
Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias: Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias, Ó velas do perdão! candeias da desgraça! Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça! Olhos accezos como altares de novena! Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna! Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas, Lume dos que no mar andam botando as linhas... Ó pharolim da barra a guiar os navegantes! Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes, Mais os que vão na diligencia pela serra! Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra! Ó janellas de treva, abertas no teu rosto! Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto! Luas d'Estio! Luas negras de velludo! Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo Quanto ha de branco: véus de noivas, cal Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal, Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas! Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas! Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha... Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha... Olhos tranquillos e serenos como pias! Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias Cheias de Luz! Olhos sem par e sem irmãos, Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos! Estrellas do pastor! Olhos silenciozos, E milagrozos, e misericordiozos, Com os teus olhos nunca ha noites sem luar, Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar! Olhos negros! vós sois duas noites fechadas, Ó olhos negros! como o céu das trovoadas...
Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes! De que te serve ter uns astros sem eguaes? Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves? O mar a uivar! A espuma verde das marés! Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja! Toda uma cathedral de lutas, uma igreja A arder entre clarões de coleras! O orgulho Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho! Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica! Quantos lares sem lume e quanta gente rica! Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias! Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias! Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças! Quantos suores sem proveito! quantas taças A trasbordar veneno em espumantes boccas! Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas, N'este macomio do Planeta! E as orfandades! E os vapores no mar, doidos, ás tempestades! E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia! E aquella que não sae por ter uzada a saia! E os que sossobram entre a vaidade e o dever! E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer! Olha essa procissão que passa: um torturado De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado, E para ser feliz fez todos os esforços... Olha as insomnias d'uma noite de remorsos, Como dez annos de prizão maior-cellular! Olha esse tysico a tossir, á beira-mar... Olha o bébé que teve Torre de coral De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal, Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada, Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada! Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas... Olha essas rugas que têm certos diplomatas! Olha esse olhar que têm os homens da politica! Olha um artista a ler, soluçando, uma critica... Olha esse que não tem talento e o julga ter E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever! Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade! Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade! Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos! Olha um moço a chorar seus crueis desenganos! Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal! Olha aquelle que habita uma Torre de sal, Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas, Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas! Olha um velhinho a carregar com a farinha E o filho no arraial, jogando a vermelhinha! Olha a sair a barra a galera Gentil E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil! Olha, acolá, no caes uma outra como chora: É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!» Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão...
Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!
Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos, Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos! Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama, Foi para ver, coitada! essa bola de lama Que pelo espaço vae, leve como a andorinha, A Terra!
Ó meu amor! antes fosses ceguinha...
Pariz, 1891.
*O Somno de João*
O João dorme... (Ó Maria, Dize áquella cotovia Que falle mais devagar: Não vá o João, acordar...)
Tem só um palmo de altura E nem meio de largura: Para o amigo orangotango O João seria... um morango! Podia engulil-o um leão Quando nasce! As pombas são Um poucochinho maiores... Mas os astros são menores!
O João dorme... Que regalo! Deixal-o dormir, deixal-o! Callae-vos, agoas do moinho! Ó mar! falla mais baixinho... E tu, Mãe! e tu, Maria! Pede áquella cotovia Que falle mais devagar: Não vá o João, acordar...
O João dorme... Innocente! Dorme, dorme eternamente, Teu calmo somno profundo! Não acordes para o mundo, Póde affogar-te a maré: Tu mal sabes o que isto é...
Ó Mae! canta-lhe a canção, Os versos do teu irmão: «Na Vida que a Dor povoa, Ha só uma coisa boa, Que é dormir, dormir, dormir... Tudo vae sem se sentir.»
Deixa-o dormir, até ser Um velhinho... até morrer!
E tu vel-o-ás crescendo A teu lado (estou-o vendo João! Que rapaz tão lindo!) Mas sempre, sempre dormindo...
Depois, um dia virá Que (dormindo) passará Do berço, onde agora dorme, Para outro, grande, enorme: E as pombas que eram maiores Que João... ficarão menores!
Mas para isso, ó Maria! Dize áquella cotovia Que falle mais devagar: Não vá o João, acordar...
E os annos irão passando.
Depois, já velhinho, quando (Serás velhinha tambem) Perder a cor que, hoje, tem, Perder as cores vermelhas E for cheiinho de engelhas: Morrerá sem o sentir, Isto é deixa de dormir... Acorda e regressa ao seio De Deus, que é d'onde elle veio...
Mas para isso, ó Maria! Pede áquella cotovia Que falle mais davagar:
Não vá o João, acordar...
Pariz, 1891.
*Ao Canto do Lume*
Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo! Ninguem, viv'alma... O que farão os mais? Senhor! a Vida não é um rapido segundo: Que longas horas estas horas! Que profundo Spleen o d'estas noites immortaes!
Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama...) Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão! E quando todo se extinguir na aurea chamma, Eu botarei (para que serve? já não ama...) As cinzas brancas, meu vermelho coração!
Lá fóra o vento como um gato bufa e mia... Ó pescadores, vae tão bravo o mar! Cautella... Orçae! Largae a escota! Ave Maria! Cheia de Graça... Horror! Mortos! E a agoa tão fria!... Que triste ver defuntos a boiar!
Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno, Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil. Nada ha peior que este somnambulo abandono! Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!
A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento! Que felizes, sois prestes a partir! Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!... Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato... o vento... Coitado! é o Georges, tysico, a tossir...
Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer! Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando... Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer...
Oiço um apito. O trem que se vae... Engatar-te Quem me dera o wagon dos sonhos meus! Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te... —Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte! Coitado de quem fica... Adeus! adeus!
Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero. Por toda a parte é vil o homem e bom o céu. —Americas! Japão! Indias! Calvario!... Quero Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero E a Agueda beber agoa do Botareu...
Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha, Paizes raros, Neves, Areiaes; Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha, Armei na França minha tenda de campanha... E tedio, tedio, tedio e nada mais!
Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas, Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae! Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas! Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas, Tal como aspirações irrealizaveis, ai!
Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar. Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o: Agora, trago uma medalha sobre o seio Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.
Espiritos! em vão, debalde por vós clamo: Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim! As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo, E, hoje, não... Porque? Traço o parallelogrammo, Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!
Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia Pelo luar da lua de Canaan: Quero passar o além que para além se alteia, A nação de que a Terra é uma pequena aldeia E um logarejo a Estrella da Manhã!
(E a chuva cae...) Meu Deus! Que insupportavel mundo! Viv'alma! (O vento geme...) O que farão os mais? Senhor! A Vida não é um rapido segundo: Que longas horas estas horas! Que profundo Spleen mortal o d'estas noites immortaes!
Pariz, 1890-1891.
*A Sombra*
Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello São horas d'ella vir. Minha alma, attende! Que já a lua, a sentinella, rende Na esplanada do céu, ás portas do Castello...
Oiço um rumor: talvez... Eil-a, é ella: ao longe, avisto Seu vulto em flor: postas as mãos no seio, Com o cabello separado ao meio, Todo caido para traz, como o de Christo!
Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida! Quantas lembranças d'este peito arranco! Foi assim, que primeiro a vi, de branco, Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!
Que luz projecta! Que explendor! Parece dia! Os gallos cantam, annunciando a aurora!... Ide deitar-vos que ainda não é a hora, Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!
Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa! Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a... Terá ainda a mesma voz tranquilla? Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça...
Mas ao passar por mim, como d'algum perigo, Foge. (Talvez, já seja tarde...) Ó Clara! Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!... E oiço a voz d'ella n'um murmurio: «Anda commigo...»
Coimbra, 1888.
*O Meu Cachimbo*
Ó meu cachimbo! Amo-te immenso! Tu, meu thuribudo sagrado! Com que, bom Abbade, incenso A Abbadia do meu passado.
Fumo? E occorre-me á lembrança Todo esse tempo que lá vae, Quando fumava, ainda criança, Ás escondidas do meu Pae.
Vejo passar a minha vida, Como n'um grande cosmorama: Homem feito, pallida Ermida, Infante, pela mão da ama...
Por alta noite, ás horas mortas, Quando não se ouve pio, ou voz, Fecho os meus livros, fecho as portas Para fallar comtigo a sós.
E a noite perde-se em cavaco, Na Torre d'Anto, aonde eu moro! Alli, mettido no buraco, Fumo e, a fumar, ás vezes... choro.
Chorando (penso e não o digo) Os olhos fitos neste chão, Que tu és leal, és meu amigo... Os meus amigos onde estão?
Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»... Os trez, os intimos, Aquelles, Estão na Morte, no extrangeiro... Dos mais não sei, perdi-me d'elles.
Morreram-me uns. Por elles peço A Deus, quando está de maré: E, ás noites, quando eu adormeço, Phantasmas, vêm, pé ante pé...
Tristes, nostalgicos da cova, Entram. Sorrio-lhes e fallo... Deixam-se estar na minha alcova, Até se ouvir cantar o gallo...
Outros, por esses cinco oceanos, Por esse mundo erram, talvez... Não me escreveis, ha tantos annos! Que será feito de vocês?
Hoje, delicias do abandono! Vivo na paz, vivo no limbo: Os meus amigos são o Outomno, O Mar e tu, ó meu Cachimbo!
Ah! quando for do meu enterro, Quando eu partir gelado, emfim, No meu caixão de mogno e ferro, Quero que vás ao pé de mim.
Santa mulher que me tratares, Quando em teus braços desfalleça, Caso meus olhos não cerrares, Embora! Que isto não te esqueça:
Colloca, sob a travesseira, O meu cachimbo singular E enche-o, sollicita enfermeira, Com Gold-Fly, para eu fumar...
Como passar a noite, amigo! No Hotel da Cova sem conforto? Assim, levando-te commigo, Esquecer-me-ei de que estou morto...
Coimbra, 1889.
*Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*
Memoria A J. d'Oliveira Macedo, Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.
Ás horas do crepusculo, ao Bemdito, Quando a formoza Lua, a leiteirinha, Vae dar o leite ás cazas do Infinito...
Ás horas das Trindades, á noitinha, Quando ha milagres e sublimes couzas E caza o rouxinol com a andorinha...
Quando a alma das virgens religiozas, Triste se envolve n'um burel de magoa E os anjos noivam mail-as suas Rozas...
Quando o luar azula a espuma, a fragua, E o céu sem fim, a abbobada estrellada, Como que tem os olhos razos de agoa...
N'essa hora indeciza, augustiada, Em que o universo está, meio ás escuras, Que não se sabe se é antes a alvorada:
Eu pude ver, erguendo-se ás alturas, Essa radioza lagryma de pranto Que despedem, morrendo, as criaturas.
E ao vir da noite, livido de espanto, Vi uma estrella a mais no azul do céu: É que um poeta, um justo, um bom, um santo,
Ás horas do crepusculo... morreu! O simples coração de Julieta Dentro da alma clara de Romeu!
Uma criação de Deus, mas incompleta: Aguia, encerrando um coração de pomba, Cedro que dava folhas de violeta!
Ah, quando vejo alguma flor que tomba Meu coração estorce-se de dor, De Deus minha alma inconsolavel zomba!
Um lyrio branco, o seu primeiro amor, Aos ventos, aos relampagos, ficou N'este Valle de Lagrymas, Senhor!
Quem lhe dera a mortalha que levou Toda coberta do cabello loiro Da mystica menina que elle amou!
Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro, Na janella que deita para o mar, Soltas ao vento as suas tranças de oiro!
Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar, Ó Lua, noiva da esverdeada fera, Deixae do céu a vossa luz tombar!
Ó aves, que trazeis a primavera, Para cobrir o solitario ninho, Ide buscar á sua campa a hera!
Ó pombas de luar, pombas de linho, Que ides tão alto, divagando errantes, Quazi mortas, perdidas no caminho:
Do vento sobre as azas triumphantes Prendei a aza e, assim, acompanhae O scismador que vos cantava d'antes!
Elle precorre victoriozo, olhae! Entre espumas de brancas andorinhas O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!
Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas, Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços E beijos com as pallidas mãozinhas...
Mas elle vae boiando nos espaços, Sendo o seu corpo uma subtil galera Com leves remos de marfim, seus braços...
Onde vae elle? a que ditoza esphera Velhinha Morte a sua alma guia?... Que vida immensa, lá no céu, o espera!
Para ganhar o pão de cada dia Cuidará da lavoira, mais das flores, Lavrando as terras da Virgem Maria!
Longe dos vis, dos maus, dos peccadores, N'uma herdade do céu, entre charruas, A cavar entre simples lavradores,
Semeando estrellas e plantando luas... E ainda o choram, que feliz desgosto! O vento passa a uivar por essas ruas...
E um oleo algente, excepcional composto, Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.
E choraes! Quem vos dera a sua sorte! Porque é que vós carpis, agoas da fonte? Não chores mais estrella azul do Norte!
Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte, E, como a juba d'um leao hirsuto, O cedro curva, em tempestade, a fronte;
Os pallidos jasmins vestem de luto... Comtudo o Morto fixa, inconsciente, O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.
Formozo, branco, meigo, sorridente, Com esses olhos que parecem soes, Vaes repoizar na cova, eternamente.
O teu genio legaste-o aos rouxinoes. E allumia-te a bocca de criança, O sorrizo dos virgens, dos heroes!
E o corpo teu na cova, essa esperança Eterna como os seculos e as flores, Entre verduras, afinal, descança...
Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores, Abrem as campas, lugubres cavernas: O coveiro é o melhor dos constructores! Covas que elle abra são cazas eternas.
Leça, 1885.
*Quando Chegar a Hora*
Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade, Oiça isto que lhe peço: Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade, Olhe: eu mesmo lh'a meço...
O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas... O cão pode lá ir: Diga ao moço, que tem a pratica das sachas, Que m'a venha elle abrir.
E o sineiro que, em vez de dobrar a finados, Que toque a Alléluia! Não me diga orações, que eu não tenho peccados: A minha alma é dia!
Será meu confessor o vento, e a luz do raio A minha Extrema-Uncção! E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!) De padres farão.
Mas as aguias, um dia, em bando como astros, Virão devagarinho, E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros, Em tiras, para o ninho!
E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio, N'aquelle dia, ai! Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio, Sugae! sugae! sugae!
Raro têm de comer. A pobreza consome As aguias, coitadinhas! Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome A essas desgraçadinhas...
De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto: Não me lembrei, não vi Que tinha feito com as aguias um contrato, No dia em que nasci.
Seixo, 1886.
*Certa Velhinha*