Versos Portuguese Artur de Azevedo História de um Soneto

Portuguese poem

História de um Soneto

by (1855–1908)

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Desde o dia feliz em que, pasmado, Pela primeira vez te vi, senhora, Um sentimento no meu peito mora Feito de angústia e feito de pecado. Não creias que ninguém houvesse amado Tão loucamente como eu te amo agora, Nem mesmo, oh! linda Laura, no de outrora Cavalheiresco tempo celebrado! Para que finde o meu suplício airoso, Ou me concede o mendigado beijo, Este martírio transformado em gozo, Ou revela ao teu dono o meu desejo: Talvez ele me faça venturoso, Dando-me a doce morte, enfim, que almejo!

Para satisfazer ao seu pedido, Na parte da denúncia e não do beijo, Revelei a meu dono o seu desejo: Os versos entreguei a meu marido. Este em vez de ficar enfurecido, E de agarrar um ferro malfazejo, Tomou a coisa á conta de gracejo, E pôs-se a rir como um perdido! Pois se é ele o autor do tal soneto! O senhor copiou-o da Nova Aurora, Estragando-lhe apenas um quarteto... Ele, que a Musa já mandou embora, Cede-lhe os versos (discrição prometo), Mas não quer sociedade na senhora.