Portuguese poem
A Ilha de Cypango
by Augusto dos Anjos (1884–1914)
Estou sósinho! A estrada se desdobra Como uma immensa e rutilante cobra De epiderme finissima de areia E por essa finissima epiderme Eis-me passeiando como um grande verme Que, ao sol, em plena podridão, passeia!
A agonia do sol vae ter começo Caio de joelhos, tremulo... Offereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Occaso que nas aguas se retrata Nitidamente reproduz, exacta, A saudade interior que ha no meu peito...
Tenho allucinações de toda a sorte... Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lazaro não sente, Em negras nuanças lugubres e aziagas Vejo terribilissimas adagas, Atravessando os ares bruscamente.
Os olhos volvo para o ceu divino E observo-me pygmeu e pequenino Atravez de minusculos espelhos. Assim, quem deante duma cordilheira, Pára, entre assombros, pela vez primeira, Sente vontade de cahir de joelhos!
Sôa o rumor fatidico dos ventos, Annunciando desmoronamentos De mil lagedos sobre mil lagedos... E ao longe sôam tragicos fracassos De heroes, partindo e fracturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos!
Mas de repente, num enleio doce, Qual se num sonho arrebatado fosse, Na ilha encantada de Cypango tombo, Da qual, no meio, em luz perpetua, brilha A arvore da perpetua maravilha, Á cuja sombra descansou Colombo!
Foi nessa ilha encantada de Cypango, Verde, affectando a forma de um losango, Rica, ostentando amplo floral risonho, Que Toscanelli viu seu sonho extincto E como succedeu a Affonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!
Lembro-me bem. Nesse maldito dia O genio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio... Iriamos a um paiz de eternas pazes Onde em cada deserto ha mil oasis E em cada rocha um crystallino veio.
Gozei numa hora seculos de affagos, Banhei-me na agua de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores... Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o panno da mortalha, Que estou cozendo para os meus amores!
Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo trio Anesthesiou-me a sensibilidade E a grande golpes arrancou as raizes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade!
Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro!... A luz descreve zigzags tortos Enviando á terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dous realejos Estão chorando meus amores mortos!
E a treva occupa toda a estrada longa... O Firmamento é unia caverna oblonga Em cujo fundo a Via-lactea existe. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste!