Portuguese poem
O Morcêgo
by Augusto dos Anjos (1884–1914)
Meia noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcêgo! E, agora, vêde: Na bruta ardencia organica da sêde, Morde-me a guéla igneo e escaldante môlho.
«Vou mandar levantar outra parêde.» — Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha rêde!
Pégo de um pau. Esforços faço. Chego A tocal-o. Minh’alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcêgo! Por mais que a gente faça, á noite, elle entra Imperceptivelmente em nosso quarto!