Portuguese poem
Poema Negro
by Augusto dos Anjos (1884–1914)
Para illudir minha desgraça, estudo. Intimamente sei que não me illudo. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares funebres, carrego A indifferença estupida de um cego E o ar indolente de um chinez idiota!
A passagem dos seculos me assombra. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavallo de electricidade?! Caminho, e a mim pergunto, na vertigem: — Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.
Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o echo, Eu torço os braços numa angustia douda E muita vez, á meia noite, rio Sinistramente, vendo o verme frio Que ha de comer a minha carne toda!
É a Morte — esta carnivora assanhada — Serpente má de lingua envenenada Que tudo que acha no caminho, come... — Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro, Sae para assassinar o mundo inteiro, E o mundo inteiro não lhe mata a fome!
Nesta sombria analyse das cousas, Corro. Arranco os cadaveres das lousas E as suas partes pôdres examino... Mas de repente, ouvindo um grande estrondo, Na podridão daquelle embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino!
Surprehendo-me, sosinho, numa cova. Então meu desvario se renova... Como que, abrindo todos os jazigos, A Morte, em trajos pretos e amarellos, Levanta contra mim grandes cutellos E as baionetas dos dragões antigos!
E quando vi que aquillo vinha vindo Eu fui cahindo como um so1 cahindo De declinio em declinio; e de declinio Em declinio, com a gula de uma fera, Quiz ver o que era, e quando vi o que era, Vi que era pó, vi que era esterquilinio!
Chegou a tua vez, oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza, Perante a qual meus olhos se extasiam... Eu desafio, desta cova escura, No hysterismo damnado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam!
Tu não és minha mãe, velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes Por tua causa apodreci nas cruzes, Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove mezes!
Semeadora terrivel de defunctos, Contra a aggressão dos teus contrastes juntos A besta, que em mim dorme, acorda em berros; Acorda, e após gritar a ultima injuria, Chocalha os dentes com medonha furia Como si fosse o attrito de dous ferros!
Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Tu mataste meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo, Amarrado no horror de tua rede, Déste-me fogo quando eu tinha sêde. Deixa te estar, canalha, que eu me vingo!
Subito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. É Sexta-Feira Santa. A treva invade o obscuro orbe terrestre. No Vaticano, em grupos prosternados, Com as longas fardas rubras, os soldados Guardam o corpo do Divino Mestre.
Como as stalactites da caverna, Cáe no silencio da Cidade Eterna A agua da chuva em largos fios grossos... De Jesus Christo resta unicamente Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!
Não ha ninguem na estrada da Ripetta. Dentro da Igreja de S. Pedro, quieta, As luzes funeraes arquejam fracas... O vento entoa canticos de morte. Roma estremece! Além, num rumor forte, Recomeça o barulho das matracas.
A desaggregação de minha Ideia Augmenta. Como as chagas da morphéa, O medo, o desalento e o desconforto Paralysam-me os circulos motores. Na Eternidade, os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto!
Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema, no ar de minha terra, Na molecula e no atomo... Resume A espiritualidade da materia E elle è que embala o corpo da miseria E faz da cloaca uma urna de perfume.
Na agonia de tantos pezadelos Uma dor bruta puxa-me os cabellos. Desperto. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconnexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E um pedaço de cera derretida!
Dorme a casa. O ceu dorme. A arvore dorme. Eu, somente eu, com a minha dor enorme Os olhos ensanguento na vigilia! E observo, emquanto o horror me corta a fala, O aspecto sepulchral da austera sala E a impassibilidade da mobilia.
Meu coração, como um crystal, se quebre; O thermometro negue minha febre Torne-se gelo o sangue que me abraza, E eu me converta na cegonha triste Que das ruinas duma casa assiste Ao desmoronamento de outra casa!
Ao terminar este sentido poema Onde vasei a minha dor suprema Tenho os olhos em lagrimas immersos... Rola-me na cabeça o cerebro ôco. Por ventura, meu Deus, estarei louco?! Daqui por diante não farei mais versos.