Versos Portuguese Augusto dos Anjos Queixas Nocturnas

Portuguese poem

Queixas Nocturnas

by (1884–1914)

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Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Minh’alma sáe agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada, entre estes monstros, ando!

Não trago sobre a tunica fingida As insignias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida.

O quadro de afflições que me consomem O proprio Pedro Americo não pinta... Para pintal-o, era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem!

Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguem, armado de arcabuz, Na ancia incoercivel de roubar a luz, Estou á espera de que o Sol desponte!

Bati nas pedras dum tormento rude E a minha magua de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha unica saúde!

As minhas roupas, quero até rompel-as! Quero, arrancado das prisões carnaes, Viver na luz dos astros immortaes, Abraçado com todas as estrellas!

A Noite vae crescendo apavorante E dentro do meu peito, no combate, A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante!

E eu lucto contra a universal grandeza Na mais terrivel desesperação... E’ a lucta, é o prelio enorme, é a rebellião Da creatura contra a natureza!

Para essas luctas uma vida é pouca Inda mesmo que os musculos se esforcem; Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra, em coalhos, pela bocca

E muitas vezes a agonia é tanta Que, rolando dos ultimos degraus, O Hercules treme e vai tombar no cháos De onde seu corpo nunca mais levanta!

E’ natural que esse Hercules se estorça, E tombe para sempre nessas luctas, Estrangulado pelas rodas brutas Do mechanismo que tiver mais força.

Ah! Por todos os seculos vindouros Ha de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã, Igual á lucta dos christãos e mouros!

Sobre historias de amor o interrogar-me E’ vão, é inutil, é improficuo, em summa; Não sou capaz de amar mulher alguma Nem ha mulher talvez capaz de amar-me.

O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal; O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes.

Hoje é amargo tudo quanto eu gosto: A benção matutina que recebo... E é tudo: o pão que como, a agua que bebo, O velho tamarindo a que me encosto!

Vou enterrar agora a harpa bohemia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o echo duma voz E o grito desvairado da blasphemia!

Que dentro de minh’alma americana Não mais palpite o coração — esta arca, Este relogio tragico que marca Todos os actos da tragedia humana! —

Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o tumulo de Orpheu; Seja este, emfim, o ultimo canto meu Por esta grande noite brazileira!

Melancholia! Estende-me a tu’aza! E’s a arvore em que devo reclinar-me... Si algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa!

Pau d’Arco — 1906