Versos Portuguese Bernardo Guimarães Visita à sepultura de meu irmão

Portuguese poem

Visita à sepultura de meu irmão

by (1825–1884)

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A noite sempiterna, Que tu tão cedo viste, Cruel, acerba e triste, Sequer da lua idade não te dera Que lograsses a fresca primavera?

(Camões.)

Não vês n’essa collina solitaria Aquella ermida, que sózinha alveja O esguio campanario aos céos erguendo, Como garça, que em meio das campinas Alça o collo de neve? E junto a ella um tosco muro cinge A pousada dos mortos nua e triste, Onde, plantada em meio, a cruz se eleva, A cruz, bussola santa e veneravel, Que nas tormentas e vaivens da vida O porto indica da celeste patria....

Nem moimento, nem piedosa lettra Vem aqui illudir a lei do olvido; Nem arvore funerea ahi susurra, Prestando pia sombra ao chão dos mortos; Nada quebra no lugubre recinto A paz sinistra que rodêa os tumulos: Alli reina sózinha Na hedionda nudez calcando as campas A implacavel rainha dos sepulcros; E só de quando em quando Vento da soidão passa gemendo, E levanta a poeira dos jazigos.

Aqui tristes lembranças dentro d’alma Eu sinto que se acordão, como cinza, Que o vento de entre os tumulos revolve; Meu infeliz irmão, aqui me surges, Como a imagem de um sonho esvaecido, E no meu coração sinto echoando, Qual debil som de suspirosa aragem, Tua voz querida a murmurar meu nome. Pobre amigo! — no albor dos annos tenros, Quando a esperança com donoso riso Nos braços te afagava,

E desdobrava com brilhantes côres O painel do futuro ante os teus olhos, Eis que sob teus passos se abre subito O abysmo do sepulcro....

E aquella fronte juvenil e pura, Tão prenhe de futuro e d’esperança, Aquella fronte que talvez sonhava Ir no outro dia, — ó irrisão amarga! Repousar docemente em niveo seio, Entre os risos de amor adormecida, Vergada pela ferrea mão da morte, Cahio livida e fria No duro chão, em que repousa agora. E hoje que venho no aposento lugubre Verter piedoso orvalho de saudade Na planta emmurchecida, Ah! nem ao menos n’esse chão funereo Os vestigios da morte encontrar posso! Tudo aqui é silencio, tudo olvido, Tudo apagou-se sob os pés do tempo!....

Oh! que é consolo ver ondear a coma D’uma arvore funerea sobre a lousa,

Que escondeu para sempre a nossos olhos D’um ente amado inanimados restos. Cremos que a anima o espirito do morto; Nos mysticos rumores da folhagem Cuidamos escutar-lhe a voz dorida Alta noite gemendo, e em sons confusos Mysterios murmurando d’além-mundo. Desgrenhado chorão, cypreste esguio, Funereas plantas dos jardins da morte, Monumentos de dôr, em que a saudade Em nenia perennal vive gemendo, Parece que com lugubre susurro Ao nosso dó piedosos se associão, E erguendo ao ar os verdenegros ramos Apontão para o céo, sagrado asylo, Refugio extremo a corações viuvos, Que collados á pedra funeraria, Tão fria, tão esteril de consolos, O seu dorido luto em vãos lamentos Arrastão pelo pó das sepulturas.

Mas — nem um goivo, nem funerea lettra Amiga mão plantou n’este jazigo; Ah! ninguem disse á arvore dos tumulos

— Aqui sobre esta campa Cresce, ó cypreste, e geme sobre ella, Qual minha dôr, em murmurio eterno! — Sob essa grama pallida e enfesada Entre os outros aqui perdido jazes Dormindo o teu eterno e fundo somno.... Sim, pobre flôr, sem vida aqui ficaste, Envolta em pó, dos homens esquecida.

«Dá-me tua mão, amigo, «Marchemos juntos n’esta vida esteril, «Vereda escura, que conduz ao tumulo; «O anjo da amizade desde o berço «Nossos dias urdio na mesma têa; «Elle é quem doura os nossos horizontes, «E a nossos pés alguma flôr esparge.... «Quaes dous regatos, que ao cahir das urnas «Se encontrão na vallada, e n’um só leito «Se abração, se confundem, «E quer volvão serenos, reflectindo «O azul do céo e as florejantes ribas, «Quer furiosos ronquem «Em boqueirões sombrios despenhados,

«Sempre unidos n’um só vão serpeando «Té se perderem na amplidão dos mares, «Taes volvão nossos dias; «A mesma taça no festim da vida «Para ambos sirva, seja fel ou nectar: «E quando emfim, completo o nosso estadio, «Formos pedir um leito de repouso «No asylo dos finados, «A mesma pedra nossos ossos cubra!» É assim que tu fallavas Ao amigo, que aos candidos accentos De teu fallar suave attento ouvido Inclinava sorrindo: E hoje o que é feito d’esse sonho ameno, Que nos dourava a ardente fantasia? D’essas palavras de magia cheias, Que em melliflua torrente deslisavão De teus labios sublimes? São vagos sons, que me murmurão n’alma, Qual reboa gemendo no alaúde A corda que estalára.

Ledo arroio que vinhas da montanha

Descendo alvo e sonoro, O sol abraseado do deserto N’um dia te seccou as ondas limpidas, E eu fiquei só, trilhando a escura senda, Sem tuas puras aguas Para orvalhar-me os ressequidos labios, Sem mais ouvir o trepido murmurio, Que em tão placidos sonhos m’embalava....

Mas — cessem nossas queixas, e curvemo-nos Aos pés d’aquella cruz, que alli se exalça, Symbolo sacrosanto do martyrio, Fanal de redempção, Que na hora do extremo passamento Por entre a escura sombra do sepulcro Mostra ao christão as portas radiantes Da celeste Solima, — eil-a que fulge Como luz de esperança ao caminhante, Que transviou-se em noite de tormenta; E alçada sobre as campas Parece estar dizendo á humanidade: Não choreis sobre aquelles que aqui dormem; Não mais turbeis com vossos vãos lamentos

O somno dos finados. Elles forão gozar bens ineffaveis Na pura esphera, onde d’aurora os raios Seu brilho perennal jámais extinguem, Deixando sobre a margem do jazigo A cruz dos soffrimentos.

Adeos, portanto, funebre recinto! E tu, amigo, que tão cedo vieste Pedir pousada na mansão dos mortos, Adeos! — foste feliz, — que a senda é rude, O céo é tormentoso, e o pouso incerto.