Versos Portuguese Bernardo Guimarães Segunda evocação

Portuguese poem

Segunda evocação

by (1825–1884)

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Oh! quem és tu, que assim n′alma me vibras Olhar ardente e vivo, E com sorrir lascivo Do peito meu vens abalar as fibras?...

Em crespas ondas cahe-te nas espaldas Negra madeixa em cachos abundantes, Bem como da montanha pelas faldas A coma ondula ás selvas susurrantes.

Gentil como Moema, Alças vaidosa o collo teu moreno,

Como garbosa ema, Que ufana vaga pelo campo ameno.

Oh! vem! — bem te conheço; — és tu, que outr′ora Febre fatal nas veias me ateaste; E com teus risos, tua voz canora, Humilde ás tuas plantas me arrojaste; E acodes hoje aos sons de minha lyra, A ver o amante, que por ti suspira.

Travessa como sempre, e bandoleira, Nos teus labios constante paira o riso, E o brando olhar e a boca feiticeira De delicias promette um paraiso. Mas ah! que essa apparencia tão fagueira Dá morte ao coração, dá morte ao siso...

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Tudo aniquila; e do vergel frondoso Sómente a cinza resta.

Sobre meu peito a leve cabecinha Um dia reclinaste, Mas sem saber que n’elle se continha Um coração, qual nunca suspeitaste; Mal pensando, que fogo alimentavas, Sobre um volcão a fronte repousavas.

De meus sentidos na fatal cegueira Eu tomei por amor teus desvarios; E por mais que sorrisses-me fagueira, Aos beijos meus achei teus labios frios. As faces tuas encostaste ás minhas, Mas não me déste a alma, que a não tinhas.

Ah!... bem cedo entendi que me embaías Com teus risos e afagos seductores; Que essas caricias frias Tambem davas a outros amadores, E como um sol a todos aquecendo, Teus mimos e favores A uns e outros ias concedendo.

Inda bem que esse amor durou tão pouco!... Meu coração de angustias estalava... Ardendo em raiva, de ciumes louco, Veloz me arrebatava Meu rapido corsel, Transpondo brenhas e galgando serras, Para bem longes terras, Para longe de ti, minha infiel!...

Porém não quero já com vãos queixumes O prazer destruir que hoje me trazes; Oh! não! sem recordar velhos ciumes Façamos hoje as pazes.

Como se lança um manto funerario Sobre o livido rosto de um finado Para occultar-lhe a feia hediondez, Assim do olvido o gelido sudario Sobre as desgraças e erros do passado Lancemos de uma vez.

Se eu agora lembrei-te taes loucuras, Comigo não te enfades,

Que a despeito de tuas travessuras De nosso amor me lembro com saudades.

Oh! recordemos antes as delicias Que me déste a sorver; — as noites breves, Que amparárâo com sombras tão propicias Prazeres, que do tempo as azas leves Depressa nos roubárão, E d’elles só lembrança nos deixárão.

Ouvir dos labios teus hoje desejo Doces palavras, que disseste outr’ora; Quero mostrar-te n’um fervente beijo, Que minha alma té hoje inda te adora.

Sobre os joelhos meus vem pois sentar-te, Bem como outr’ora; — quero um só instante Beijar-te o riso, e as graças contemplar-te... Vê... minha fronte fervida, anhelante, No doce afan de amor perdido o siso, Inda nos seios morbidos descahe-te; Cinge-me ao peito teu, dá-me um sorriso... Toma este beijo, e vai-te...